sexta-feira, 28 de maio de 2004

Chatos de ocasião

Já diria o sábio da montanha: o bom desta vida é que tudo passa. Dores passam, traumas passam, mal-humor passa. Até alegria esplêndida e momentos de êxtase passam. Para algumas pessoas, é bom que estes últimos passem mesmo. Porque existe uma categoria de gente que fica completamente cega ao menor sinal de mudança bacana no cotidiano. E toca agüentá-los...

Você já deve ter conhecido sujeito ou mocinha pertencente a esse grupo. São tão bons em observar o próprio umbigo que, nas situações superfelizes, querem demonstrar seu contentamento através dos seis continentes. Você pode ter acabado de perder um braço no moedor de carne, mas se a garota arrumou um novo namorado, ela vai suspirar, sorrir e dizer “é só um arranhão... Então: o Afonso é tãããão fofuxo, não é?”.

Sou plenamente a favor que as conquistas de amigos, parentes e colegas sejam comemoradas como as minhas próprias. Mas não há um limitezinho? Poxa, eu fico mesmo empolgada quando sei que um camarada achou sua cara-metade – apenas isso não chega a me tirar o sono. Gosto bastante de saber do enlace, não gosto é de ser envolvida em detalhes sórdidos sobre como o moço beija ou... argh!... como ele se porta na famosa “hora do vamovê”.

Os C.O. – Chatos de Ocasião, para facilitar a classificação da turma – não são malas eternos. São gente boa e divertida, na maior parte do tempo, mas surtam ao passar uma felicidade plena. Ser contratado em um trabalho legal, por exemplo, é motivo para ele falar apenas disso em todos os telefonemas e encontros da moçada.

Convenhamos: 98% das pessoas odeia seu emprego. Tentamos achar pontos legais para não pensar que aquilo é um martírio, mas a verdade é que a grande maioria dos humanos detesta o chefe, o vizinho de mesa, o fluxo, as reuniões, aquela nojenta da recepcionista incapaz de dar bom dia. Isso posto, ninguém merece ouvir horas de falação sobre como é compensador para fulano ganhar rios de dinheiro e ser valorizado.

Isso não é nada, porém, perto das datas comemorativas. Vixe! Casamento e maternidade são duas fases desesperadoras para quem conhece um C.O.! A moçoila vai contrair núpcias e, 15 meses antes, já quer contar sobre os pratos servidos pelo bufê e o vestido com 12 metros de cauda visto numa revista estrangeira. Uma ligação para marcar cinema vira oportunidade para a santa do outro lado descrever todo o bordado de renda que uma tia fez para o enxoval.

Haja paciência – e diplomacia, porque é importante usar muito dela a fim de não perder o amigo que ainda vive no âmago daquele ser. E o duro é que os C.O. casam e têm filhos. Lá vem, então, a etapa mais mortífera: saberás tudo o que o médico disse na última consulta e serás obrigada a organizar um chá de bebê – ou os pais surtados entenderão como ofensa.

Tem mulher que vira C.O. ainda na gestação. São aquelas que agarram sua mão e pressionam contra a barriga para que você sinta “o Arnaldo Júnior chutar”. Céus, é embaraçoso demais... Pior foi para uma amiga minha, a Gabi. Capturada, ela foi obrigada a assistir o ultra-som da colega gestante em VHS. E com narração do marido da moça!

Existem ainda chatos de ocasião especialistas em falar sobre casa nova, reforma e toda sorte de assuntos ligados à arquitetura, decoração e bricolagem. Eles estão sempre dispostos a contar para um bando de gente (que não liga a mínima) sobre a mesa dos anos 50 recém-adquirida e aquela lojinha de gravuras que foi descoberta.

É nessa última categoria de C.O.s que eu me encontro no momento – sempre aborrecendo os companheiros contando sobre cadeiras, sofás e o armário da cozinha que vai ficar uma graça porque terá... ok, eu paro. Ainda bem que, para todo chato de ocasião, existem muitos amigos munidos de paciência e sorrisos afáveis. Obrigada, gente! Prometo que o efeito C.O. vai passar logo.

Fla Wonka às 02:16 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold