quarta-feira, 12 de maio de 2004

Acene e sorria

Já citei em mal-traçadas linhas publicadas neste sítio o quanto meus sentidos são defasados. Eu enxergo mal (mas tenho o atenuante dos seis graus de miopia a meu favor) e ouço pior ainda. Ainda por cima, tenho a tendência de preencher com a imaginação os buracos deixados pela minha incapacidade sensorial.

Mas nem sempre é possível inventar alguma coisa para completar o que não entendemos. Isso é fácil quando não compreendo o que uma música diz, mas fica duro criar uma frase e responder em cima dela quando não ouço o que meu interlocutor acabou de me falar, por exemplo.

Se é pessoa conhecida, pergunto "o quê?" até entender – o que pode levar de duas a cinco vezes. Mas se é algum infiel recém-apresentado, a intimidade não dá para esse gasto.

A solução? Indago uma vez ou duas "como?" e, depois disso, se ainda não captei o que saiu dali nem com leitura labial acompanhando, saco da tática "acene-e-sorria", que consiste em apertar um pouco os olhos, sorrir de leve e fazer um gutural e interessado "hum…".

Claro que a tática abarca um certo risco calculado. Imagine só se o que o sujeito está querendo me dizer é "que horas são?" e eu, balançando a cabeça, respondo "hum…"? Pega mal à beça ser desmascarada assim. Ainda bem que ainda não aconteceu… acho.

Já com a defasagem visual, o disfarce é dizer: "ah, sim, vi…", com o mesmo balançar suave da cabeça, mas uma expressão mais confiável no olhar. Essa é minha resposta-padrão para as ocasiões em que alguém me diz, diante de uma vista panorâmica que engloba um raio de umas sete léguas: "olha, eu moro naquele prédio ali, tá vendo? Aquele alto, com varandinhas".

E não é só com prédios-para-lá-de-comuns-em-vistas-panorâmicas que minha mentirinha branca é posta à prova. Eu também nunca vi…

Um piolho
E olha que, ao contrário de Vivi, eu já fui a não tão feliz hospedeira dessa micro-praga umas três vezes, na infância. Aliás, acho que meu sangue era uma espécie de iguaria fina para os safadinhos: bastava trocar olhares com uma criança que estivesse infestada para que os insetos malófagos e anopluros pululassem na minha cabecinha. Quando minha mãe fazia a tradicional aplicação do pente fino, dizia: "olha aqui, outro!" E estalava o bicho na unha. E me exibia a unha, satisfeita com sua eficiência: "viu?" E eu: "ah, sim, vi…".

Uma pulga
Quando o Remon, meu saudoso cão sheepdog, recebia o saltador nos seus embaraçados pelos (a despeito da escovação quase diária do danado), lá ia minha mãe passar remédio e catar alguns exemplares do sanguessuga à mão. Às vezes, ela capturava pulgas que tinham escapado para nossa cama. Entre os lençóis, olhava, olhava e finalmente dava o bote: "olha aqui, filha, peguei!". E eu, de novo: "ah, sim, vi…".

Uma estrela cadente
Quando viajávamos para o interior ou para a praia, meu irmão e minha mãe viam um sem-número de astros riscando o céu. E comemoravam: "olha lá, outra!". E eu, de bico: "ah, não vi…". Logo depois, os gritos: "nossa, outra!" E eu: "perdi…". Até que, da terceira vez em diante, eu secretamente duvidava que eles vissem tanta estrela cadente assim. E passava a repetir o inevitável "ah, sim, vi…".


falling_star.jpg

Agora sim eu vi!

Clara McFly às 07:55 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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