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Acene e sorria Já citei em mal-traçadas linhas publicadas neste sítio o quanto meus sentidos são defasados. Eu enxergo mal (mas tenho o atenuante dos seis graus de miopia a meu favor) e ouço pior ainda. Ainda por cima, tenho a tendência de preencher com a imaginação os buracos deixados pela minha incapacidade sensorial. Mas nem sempre é possível inventar alguma coisa para completar o que não entendemos. Isso é fácil quando não compreendo o que uma música diz, mas fica duro criar uma frase e responder em cima dela quando não ouço o que meu interlocutor acabou de me falar, por exemplo. Se é pessoa conhecida, pergunto "o quê?" até entender – o que pode levar de duas a cinco vezes. Mas se é algum infiel recém-apresentado, a intimidade não dá para esse gasto. A solução? Indago uma vez ou duas "como?" e, depois disso, se ainda não captei o que saiu dali nem com leitura labial acompanhando, saco da tática "acene-e-sorria", que consiste em apertar um pouco os olhos, sorrir de leve e fazer um gutural e interessado "hum…". Claro que a tática abarca um certo risco calculado. Imagine só se o que o sujeito está querendo me dizer é "que horas são?" e eu, balançando a cabeça, respondo "hum…"? Pega mal à beça ser desmascarada assim. Ainda bem que ainda não aconteceu… acho. Já com a defasagem visual, o disfarce é dizer: "ah, sim, vi…", com o mesmo balançar suave da cabeça, mas uma expressão mais confiável no olhar. Essa é minha resposta-padrão para as ocasiões em que alguém me diz, diante de uma vista panorâmica que engloba um raio de umas sete léguas: "olha, eu moro naquele prédio ali, tá vendo? Aquele alto, com varandinhas". E não é só com prédios-para-lá-de-comuns-em-vistas-panorâmicas que minha mentirinha branca é posta à prova. Eu também nunca vi… Um piolho Uma pulga Uma estrela cadente
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