quarta-feira, 12 de maio de 2004

Até com as cordas de pular

Todo mundo já passou por isso: acordar de mau humor. Sem motivo algum, há dias em que simplesmente levantamos da cama, olhamos em volta e pensamos que droga. Nem o sol iluminando a manhã conserta esse sentimento de pura braveza – e, se estiver chovendo, a coisa só tende a piorar. Parece que todas as nossas roupas não servem mais; o nosso cabelo só tem jeito se passarmos máquina zero; a água do café não quer ferver; o universo inteiro conspira contra nós.

A primeira imagem que me vêm à cabeça em momentos assim é um desenho do Snoopy. A Sally, ou Isaura para os brasileiros (e eu sempre achei um nome muito mais simpático), está vivendo um dia daqueles. Vendo a cara amarrada da amiga, Linus pergunta o que houve. E ela responde "Eu estou brava com todo o mundo". Linus começa, então, dizendo "até com o Sol?", "até com os passarinhos?", "até com as cachoeiras cristalinas?", "até com as cordas de pular?". Isaura revida "principalmente com as cordas de pular". Ela não estava conseguindo lidar com o brinquedo.

Vira-e-mexe eu tenho um dia Isaura. Pena que minhas atividades cotidianas não incluem praticar a deliciosa brincadeira que é pular corda. Pois, quando já estou suficientemente brava com o planeta e a raça humana, nada consegue piorar mais do que...

... entrar num elevador cheirando a cigarro
Eu não fumo e, tenho de admitir, o cheiro de fumaça me incomoda bastante. Claro que fico quieta na minha quando estou em um bar, por exemplo, onde as pessoas podem praticar o vício livremente. Mas eu tenho vontade de trucidar o espírito de porco que fuma dentro do elevador e me faz ficar inalando aquela porcaria do 14º andar ao térreo. Sem contar o cheiro que fica impregnado na minha roupa recém-saída do armário e no meu cabelo recém-lavado. Que raiva.

... ter o cabelo desarrumado por uma rajada de vento
Vento só é bonito na cara de modelos, com aqueles cabelos esvoaçantes e ar sexy. Ou em estrelas de Hollywood, que viajam em grandes automóveis conversíveis pelas estradas desertas dos Estados Unidos. Comigo não funciona, até porque nem tenho cabelo para esvoaçar. O máximo que o vento consegue fazer é desarrumar por completo o que eu levei 20 minutos para colocar em ordem na frente do espelho – lembre-se de que, em dias Isaura, os fios nunca colaboram.

... receber um pingo grosso na cara, na rua
Uma força maligna e raivosa toma conta do meu ser quando um pingo grosso cai na minha cara durante uma caminhada pelas calçadas. Logo depois de uma chuva, os estabelecimentos comerciais com toldos continuam pingando. E o líquido que cai ali é algo nojento: água misturada com poluição e sujeita do toldo. Para piorar, normalmente o pingo é único, mas tão grande que até machuca. Eu viro bicho quando um desses desaba sobre mim. Nojo, nojo.

... abrir embalagens que não cooperam
Nota mental: ficar longe de embalagens de qualquer tipo em dias Isaura. Principalmente longa-vida e de cereais matinais. Se as malditas não funcionam nem em circunstâncias normais, quando há toda uma paciência budista para abri-las corretamente, imagine num momento de mau humor crônico. O "puxe aqui" ou o "separe as duas abas e puxe com os dedos" vira uma luta. No final, parece que um exército visigodo foi incumbido da tarefa, tamanho o estrago que fica.

... perceber que o sabonete acabou no meio do banho
Banho é sagrado. Dependendo do andamento – temperatura da água, xampu cheiroso, espuma em quantidade certa, etc – ele tem o poder de salvar um dia raivoso. Ou de estragá-lo de uma vez. Principalmente se o raio do aquecedor a gás desiste de funcionar. Ou se descobrir, tarde demais, que o sabonete acabou. A única coisa a se fazer, nesse caso, é sair do box pingando e com frio para procurar um novo no armário. Enquanto isso, o chão do banheiro é inundado aos poucos.

... não encontrar a chave de casa
Se existe uma coisa que ferve meus miolos é não encontrar o que estou procurando. Existem certos objetos que têm vida própria e se escondem justamente quando mais precisamos deles. Acontece com a chave de casa, que nunca permanece no lugar certo quando estou atrasada e precisando sair. Outras pestinhas do gênero são pares de óculos e controle remoto. Adoram desaparecer! Acho que todos eles deveriam ter um alarme para mostrar exatamente suas posições.

... perder o ônibus por cinco segundos
Como usuária de transporte coletivo, sei que poucos acontecimentos conseguem irritar mais do que estar se encaminhando para o ponto e seu ônibus – sim, aquele mesmo que só chega a cada 30 minutos, em dias bons – passar como uma bala por você, não dando tempo nem de reagir e tentar uma corrida. Às vezes tenho vontade de voltar para casa. Mas não me dou por vencida e fico lá, sentada no ponto, respirando o ar de São Paulo e olhando o movimento enquanto espero.

... escolher a pior fila de supermercado
Saber escolher a fila certa de supermercado é uma dádiva que eu ainda não consegui obter. Se eu pego a menor de todas, me achando a esperta, sempre tem um caso enrolado na minha frente – uma velhota que viu um furo no saco de arroz e pede para o moço trocar, ou um sem-grana que fica escolhendo o que tirar para dar o dinheiro contado, ou um senhor que reclama do preço registrado, segundo ele diferente do que estava marcado na etiqueta da gôndola.

Queria eu uma corda de pular nesses momentos!

sally.gif
Somos sobreviventes, Isaura!
Vivi Griswold às 10:37 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold