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Nunca houve mulher como Mirtes Semana passada, ao sair do trabalho e seguir até o ponto de ônibus, jamais esperava que uma coisa daquele náipe fosse me acontecer. Mas aconteceu. E eu conheci a Mirtes definitiva, verdadeira, essencial, encarnada numa tiazola que ia pegar o coletivo comigo e se chamava dona Lurdes. Ela chegou à parada de ônibus, onde eu já me encontrava há uns pares de minutos, tropicando num buraco na calçada. Resmungou alguma coisa, riu sem-graça e já foi puxando papo, enquanto pegava no meu braço: "o Sacomã já passou?". E eu: "Na-da! Mas faz pouco tempo que estou aqui". Responder a essa questão aparentemente desprovida de significados mais profundos e ocultos deu a ela uma espécie de chave. Minha resposta simples chegou aos ouvidos da entidade como se fosse um "Não, o ônibus não passou (até aí, tudo bem), portanto há tempo para que você me conte toda sua vida – ou boa parte dela (eu não sei de onde ela tirou esse adendo, mas que tirou, tirou)". Ainda bem. Senão, eu jamais teria confirmado minha teoria. Das duas uma: a) ou sou uma boa observadora da realidade, pois criei uma Mirtes à imagem e semelhança do tipo verdadeiro; b) ou a vida imita a arte (num enunciado mais assustador e à la além-da-imaginação, poderíamos dizer "cuidado com o que você escreve, pois pode se realizar"). O fato é que a senhora me acompanhou até o metrô Ana Rosa e, no curto trajeto que não leva mais de meia hora, resumiu sua biografia para mim – sempre, é claro, com as pérolas dignas da classe. Começou reclamando da mulher para a qual trabalhava, que não deixava ela sair um bocadim mais cedo. "A patroa disse pr'eu posar aí, mas sabe por que eu não poso?", me perguntou, com um olhar de cumplicidade. "Porque ela me dá um colchão muito duro, menina!". Nisso, pegou no pescoço e reclamou que ainda sentia os reflexos da última vez em que dormiu (ou melhor, posou) na casa da patroa. Na seqüência, reclamou mais um pouquinho, assim mesmo, sem se preocupar com pausas e pontuações: "e ainda por cima, eu tenho que ficar olhando o menino dela, mas eu moro em Mauá, acredita?, e agora só vou chegar em casa às dez da noite, meu marido fica preocupado, porque tem uns maconheiro bem na frente do ponto de ônibus, sabe?, ali fica assim de trombadão…" E ainda me contou que havia trabalhado como cozinheira e como acompanhante de idosos (e citou uns nomes de ex-clientes, se não me engano tinha algum Adolpho – que imagino grafar-se com ph, já que o sujeito era bem velhinho). Gostava mesmo de cozinhar, mas foi mandada embora do restaurante onde havia trabalhado porque uma cozinheira "a-po-sen-ta-da, vê se pode!", salientou com o dedinho em riste, "botou cebola no meu molho" (aparentemente, molhos preparados em quantidades industriais não podem ter cebola de véspera). Mas nada disso chega aos pés do auge da nossa conversa. Pouco antes de entrarmos no metrô, sabe-se lá porque diabos, ela resolveu me contar do seu marido. Disse que era viúva e havia se amigado há quatro meses. "Olha, ele é um homem bom, viu?", me disse, para em seguida completar: "só que é, assim…" Olhou para os lados, como se fosse fazer uma revelação. Depois de uma pausa, retomou, me segredando: "ele é, assim, moreno". Mudou o tom diante da minha cara de pasmaceira, possivelmente mal-interpretada como uma expressão de reprovação benevolente por uma senhora tão discreta se amigar com alguém "moreno", e continuou: "Mas não é preto, não… É só moreno". Eu fiquei realmente sem saber o que dizer. Bem a tempo, os falantes do trem anunciaram em voz solene: "estação Ana Rosa". Levantei e disse: "eu desço aqui", sem saber com o que completar. E ela: "tchau, filha, tudo de bom, viu?". Corri, imaginando que ninguém ia acreditar quando eu contasse. Mas juro que foi assim.
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