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Uma história para domingo A garotinha bem loira e pequenina usava óculos de gatinha e era a mais nova de três irmãos. Sempre se sentiu a raspa do tacho e a ovelha negra (às avessas) da família. Explico o às avessas: em meio àquele barulhento e belicoso clã de ascendência italiana, ela era calminha e imaginativa. E como! Sandrinha tinha medo, por exemplo, do fantasma do pilar. A porta da cozinha da casa dela contava com uma pequena varanda, sustentada por dois pilares. Num deles morava o fantasma. Na hora de passar por ali, a garotinha se esgueirava apertando o corpo contra a parede. Todo o esforço era para manter-se fora do alcance da temível criatura, que ficava restrita à área que sua corrente alcançava (claro que um fantasma não existe sem correntes). Não bastasse, a mocinha de cabeça quase branca de tão dourada foi a orgulhosa dona de uma galinha de estimação. A ave chamava Ximbica. E seguia sua dona pelo quintal todo, feito bicho ensinado. O destino da pobre galinácea foi trágico como o de todos os animais criados para a gente comer. Ela acabou na panela, mas não houve cristão que fizesse a menina comer aquela galinha assada, servida suspeitissimamente no mesmo dia em que a Ximbica tinha "sumido", segundo explicou-lhe a mãe. Arrã. E não é só. Um dia, passeando no cemitério em Dia de Finados, as crianças da família tiveram a edificante idéia de brincar pulando os túmulos. A caçula Sandrinha também quis participar, ao que foi advertida pelos primos e irmãos mais velhos: "olha, se você pisar na tumba, a caveira que mora ali vai sair para te pegar!". A tentativa de dissuadi-la não funcionou e lá foi a alegre garota saltar sobre os túmulos. Depois de uns tantos saltos bem-sucedidos, eis que os suspensórios da menina ficaram presos bem no meio de um pulo, na cruz sobre a sepultura. E ela começou a gritar, paralisada de medo de olhar para trás: "socorro, a caveira me pegou, a caveira me pegou!". Virou história da família. A mais nova rebenta da trupe dos Simionatos também tinha um punhado de amigos imaginários, que apareciam debaixo da cama dela à noite. Antes dos camaradinhas invisíveis voltarem para lá, ela instruía a todos que, na manhã seguinte, quando a mãe dela viesse passar a vassoura no quarto, eles ficassem espertos para correr e desviar da piaçava senão a mãe podia descobri-los. E como a garotinha ia explicar uma trupe de anõezinhos chapeludos morando ali? Desde que eu me conheço por gente minha mãe saca das frases mais tradicionais da categoria, como "você pensa que eu sou sócia da Light" e "no meu tempo, eu tinha uma calça só para trabalhar e sair, e você fica reclamando que não tem roupa". Mas algo da Sandrinha sempre viveu nela, e acho que por isso eu fiquei assim. Se tem uma coisa que a hoje dona Sandra tem é bom-humor, entre tantos outros predicados. E como é inventadeira, essa moçoila! - digo moçoila porque nossa pouca diferença de idade e sua aparência jovial faz com que a gente passe tranquilamente por irmãs. Por isso, ainda que eu pudesse escolher, ia querer mesmo ser filha da Sandrinha. Minha mãe é espetacular, e eu quero ser que nem ela quando eu crescer. Clara McFly às 07:54 PM |
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