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É dia de feira “Moça bonita não paga... Mas também não leva!”. Onde poderia ter nascido um ditadozinho tão safado quanto engraçado? Na feira, pois sim! Esse evento semanal realizado em milhares de ruas Brasilzão afora me encanta. Pode dizer que emporcalha demais, tumultua o bairro, deixa cheiro forte num raio de 5 km. Feira é bom e eu defendo, freguesia. Quando eu era pequena, minha mãe trabalhava o dia todo. Sobrava para a Flá, aos oito ou nove anos, apanhar o carrinho e a lista previamente escrita pelos mais velhos e rumar para a feira. Nossa, como me sentia importante rodando as barracas para conferir a qualidade do tomate ou a consistência das frutas! Ganhava um monte de presentes dos feirantes, gente boa até o talo (com perdão do trocadilho). De lascas de abacate a rodelas de abacaxi, comia tudo que me ofereciam por lá. De quebra, ainda tinha o pagamento familiar: mamãe permitia a compra de um pastel quando eu fazia feira para ela. Era justo, já que a massa frita recheada é o tesouro máximo das feiras livres. Nem se o mais requintado e moderno restaurante tentasse, conseguiria reproduzir um pastel de feira com aquele sabor estupendo. Carne, queijo, palmito, pizza – era serviço duro escolher, por cerca de R$ 1,50, qual preciosidade levar. Deu água na boca aqui, só para informar. Outra banca que atazanava meu paladar era a da azeitona. Para ser sincera, nem lembro o que mais continha aquela tenda. Talvez bacalhau e outras prendas mediterrâneas – mas meus olhos só enxergavam as tinas cheias de água e azeitonas de toda cor e tamanho. As gigantes, verdes, que têm caroço do tamanho de uma bola de pingue-pongue, ainda são minhas prediletas. Na feira eu sempre ganhava uma de “chorinho”, porque o tio percebia o fanatismo da garota pela iguaria. Outro que notava de longe minha sanha era o moço do suquinho. Espero que seja do tempo de vocês: tratava-se de um líquido com cor berrante (roxo, laranja ou rosado, dependendo da anelina) armazenado em um plástico com formato de revólver, carrinho, coração ou coisa assim. Bastava cortar o bico e mandar ver no Ki-Suco meia boca. Delícia! Só na feira mesmo para achar tamanha porcaria. Mas não somente de artigos fritos ou cancerígenos se faz a feira, lógico. O coco ralado de lá, fresco e gostoso daquele jeito, não se encontra em qualquer outro lugar. A barraca dos temperos conjuga pós e grãos de dezenas de tipos, um colorido fantástico de odor melhor ainda. E ainda têm os legumes – primos mais caipiras, fortões e puros do que aqueles franzinos e molengas do mercado. Escolher tomate e batata, por exemplo, só dá gosto na feira. Lá sim eles têm tamanho decente e não apresentam gosto de plástico injetado. Adorava quando as moças da banca diziam “tá aqui seu ‘quilo bem pesado’” ou “fiz uma dúzia de 13 laranjas pra você, menina”. Dar “brinde” é coisa típica da quitanda a céu aberto. Vê se os hiper-mega-mercados arredondam valor para baixo? Mais fácil um melão criar pernas. Apenas na feira fazer compras se transforma em atividade tão divertida. Não requer a leitura de rótulos ou conferência de cheque. É uma festa mesmo quando as tias batem carrinhos, atropelam pés e estragam a unha pintada do dedão. Ou quando uma bacia de caquis rola pelo asfalto e meleca tudo. Apenas lá “moça bonita não paga”. Ok, ela “também não leva”, mas isso pode ser negociado. |
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