sexta-feira, 7 de maio de 2004

Padre Quevedo e o meu armário

A cada dia que passa aumenta a minha certeza de que há alguma coisa escondida dentro do meu armário de roupas. Uma força rebelde, enfurecida e bagunceira que vive entre camisetas e saias, tramando contra mim. Ainda não posso garantir ter encontrado, finalmente, a prova definitiva para a existência do Bicho Papão ou de um portal para outro universo. Se qualquer um desses fenômenos for real, porém, afirmo que tenho um exemplar morando ali, sem dúvida alguma. Seria este mais um caso para o intrépido Padre Quevedo?

Acho que eu vou levar o meu armário para ser examinado pelo expert em causos paranormais. Desafio o calvo senhor a apontar o dedo para as portas abertas e dizer "isso no equiziste!". Impossível. Qualquer pesquisador que olhar para dentro daquele grande retângulo de madeira vai pressentir que há uma presença fora da matéria tomando conta do local.

Quem entende de signos – e eu não entendo – diz que o motivo estaria na astrologia. Sendo eu Gêmeos com ascendente em Virgem, tenho dois lados opostos: meu lado geminiano é desordenado e caótico, enquanto meu lado virginiano é calmo e limpinho. Resumindo, eu sou aquela pessoa que não suporta bagunça na casa. Mas ao invés de arrumar tudo direito, eu vou pegando os itens pelo caminho e jogando desordenadamente em gavetas e... armários. Bem, se é para botar a culpa em algo, que seja nos signos, não em mim.

Como uma crente nos mistérios da humanidade, contudo, prefiro acreditar que um poltergeist tem habitado o meu armário desde que os homens de preto entraram aqui no apartamento para montá-lo. Ok, eles não eram bem de preto. Na verdade, usavam calça bege e camisa branca com um símbolo estranho, onde dava para ler "Tok & Stok", provavelmente uma linguagem secreta do governo dos Estados Unidos.

Naquele dia, arrumei todas as minhas roupas dentro da parte que me cabia. Abaixo, coloquei meus sapatos. Ficou tudo tão bonito que até dei uns passos para trás, observei o conjunto da obra e suspirei, feliz comigo mesma. Mas a alegria durou pouco. Na primeira oportunidade, as forças do Mal chegaram e bagunçaram tudo. Para a minha tristeza, tem sido assim desde então.

O que me espanta é a sagacidade daqueles seres, pois eles atuam com muito cuidado e perspicácia. Por exemplo, se eu arrumo o armário – e, da última vez, fiz até uma divisão por cores, como as prateleiras de lojas – eles começam a bagunçar de pouquinho, para que eu não perceba. Caso aconteça de eu estar com pressa e jogar ali dentro uma camiseta sem dobrar, da próxima vez terão duas camisetas desarrumadas. Depois, três, quatro e cinco. E assim sucessivamente, até o dia em que eu abro as portas e me deparo com tudo revirado.

Da última vez em que o fenômeno aconteceu, eu tentei deixar como estava, só para ver qual seria o passo seguinte. "Uma vez bagunçado", pensei, "não terá mais o que ser feito". Ah, como estava enganada. Agora eles causam o desaparecimento de peças de roupas.

Outro dia fiquei louca atrás de uma blusinha. Eu tinha certeza de tê-la encontrado momentos antes. Quando fui buscá-la, porém, ela tinha sumido por completo. No ato de procurar pelo item – somado à pressa e à braveza – acabei desarrumando ainda mais o conteúdo já desorganizado. Sim, eles me fizeram de cúmplice! Imagino até os risinhos escondidos enquanto a palhaça aqui revirava tudo em uma busca inútil. São diabólicos ou o quê?

Fico só imaginando o que me espera a seguir. Se eu não aparecer por aqui na segunda-feira, leitor, já sabe. Chame o Padre Quevedo!


Isso equisiste, sim senhor!
Vivi Griswold às 10:09 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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