quinta-feira, 6 de maio de 2004

Minha avó me disse

Eu já disse aqui que minha vó, antes de sofrer a série de derrames que os médicos intitulam tranqüilamente de AVCs, era uma pessoa espertíssima. As habilidades da dona Flor eram incontáveis: ela sabia fazer pão, macarrão, vinho e crustules (uma espécie de bolachinha crocante deliciosa) – tudo em casa.

Sabia curar machucados e fazer todos os chás que eram bons para todos os males; ainda era capaz de cuidar de plantas e dizer o que tirava manchas de café ou de qualquer outra coisa que caísse na roupa. Costurava, bordava e fazia tricô e crochê. Eu ficava impressionada.

Porém, o melhor de tudo (tirando, talvez, a torta de escarola e o pão doce que ela fazia) eram as expressões que essa senhora usava. Gozado como a linguagem popular muda rápido; nossas gerações são separadas por menos de cinqüenta anos – um período ridículo em termos históricos – e ela sacava de palavras muito diferentes das de hoje. Mas muito mesmo. Como, por exemplo, chofer. Não existia motorista para ela nem para o meu avô; o condutor do ônibus era chofer. E não era só isso.

"No estrangeiro"
Tudo que era de fora vinha do "estrangeiro". Os filhos dos vizinhos que se mudavam para os Estados Unidos tinham ido morar "no estrangeiro". A prima rica que visitou a Europa foi passear "no estrangeiro". O legal é que "o estrangeiro" é um termo bem amplo, né?

"Deus te crie"
Ao espirrar, eu ouvia essa expressão que, dita rapidamente, mais parecia outro espirro. "Saúde" nem pensar: minha avó desejava algo mais elaborado e botava meus problemas alérgicos direto na mão do Hômi. A variação para tosse ou engasgo era "São Brás!". A propósito, esse santo existe?

"Ornar"
De acordo com a dona Flor, nada combinava. As coisas "ornavam". O casaquinho de crochê que ela fez para minha prima era para "ornar" com o vestido. A semana de paninhos de prato ganhava bicos em tricô "ornando" com as toalhas da cozinha. E minhas roupas quase nunca "ornavam".

"Estorvo"
Muito antes do Chico Buarque batizar o livro dele assim, ela (e meu avô) usavam e abusavam da palavra. A etiqueta da roupa não incomodava; ela "estorvava". E os netos sassaricando na sala quando meu vô estava vendo TV não atrapalhavam; "amolavam". Até que o sêo Umberto dizia com aquele vozeirão: "Não me amolem!" – e todo mundo ia brincar noutra freguesia.

"Destemperada"
Essa é uma das minhas favoritas. Quando a gente comia crustules demais ou abusava dos doces, o drástico resultado percebido pelas constantes idas ao banheiro era chamado de "destempero". "Viu? Falei para não comer tudo aquilo. Agora, tá destemperada!", e corria ela para fazer um chá.

"Benza a Deus!"
Nem sei se esse "a" no meio da frase existe; mas suponho que sim. Tudo de bom que acontecia – desde a filha da vizinha sair do hospital até a manicure melhorar do bico-de-papagaio – era recebido pela minha avó com essa exclamação bem à la Mirtes. Quando a gente comia tudo também ganhava uma dessas.

"Coió"
Alguém poderia por favor me esclarecer o que é um "coió"? Será um bicho? Ou uma criatura folclórica? O que quer que seja, deve ser algo de chato. Porque a dona Flor sacava dessa para dizer que alguém era um "estorvo". Havia um upgrade: o "coió de mola", que me deixa mais intrigada ainda para saber que diabos é isso.

E a sua avó? Qual dessas intrigantes palavras ela falava? Clique aqui para contar para a gente – e para toda a comunidade de malucos do Fórum do Garotas!

Clara McFly às 06:27 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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