Muito se aprende na faculdade de jornalismo. Como diretrizes principais, nos ensinam: "separe o joio do trigo... e publique o joio", "não deixe a verdade atrapalhar uma boa matéria" e "jornalismo é como salsicha: depois de saber como é feito, todo mundo pega nojo". Ah, mas isso são somente piadas da profissão. Não importa o que digam, ir à banca folhear revistas ainda é um passatempo que eu aprecio sem julgar a qualidade do material. Ou quase.
Tenho tantas horas dispensadas nessa atividade que gosto me considerar uma expert do "microcosmo banca de jornal". Tenho estudado e notado, por exemplo, que todas as edições de revista são extremamente previsíveis. Todo mês tem reportagem sobre dieta, Paris, o carro do ano, o galã da novela das seis e sua nova mina, dicas para melhorar na carreira. É batata. Em qualquer época do ano.
Se você for até a banca de jornal nesse momento, aposto um lote de Fanta Uva 2 litros que vai encontrar as mesmas pérolas que eu sempre acho. Veja se não tem…
Revista de Mulher
Não é hilário analisar as chamadas de capa destas publicações? Se um marciano descesse à Terra e apanhasse um exemplar de Cláudia ou Nova, certamente acharia que o objetivo de vida de toda mulher é arrumar homem. Que saímos na rua com lanças e tochas caçando qualquer macho à solta – e, para isso, serviriam estes guias do tipo "como segurar namorado praticando 350 posições sexuais"?
Revista de Menina
É o cursinho vestibular para adentrar o mundo das revistas citadas acima. Antes de reunir dados sobre como apanhar homens, as garotas são moldadas nos quesitos moda, maquiagem e, óbvio, meninos. Divirto-me especialmente com os testes. Não é de suma importância que uma revistinha dê à moleca um modo de saber se é "meiga ou orgulhosa", "divertida ou mocoronga"? Já vi até um que dizia "faça o teste e confira se você é galinha". Oras, galinha que é galinha já sabe disso!
Revista de Carro
Posso falar com conhecimento de causa, porque este metiêr conheço a fundo. Todo mês é uma briga de foice para encontrar a melhor capa, o lançamento que mais vai saltar aos olhos dos viciados em gasolina. Em geral, carrões avaliados em milhares de dólares é que fazem sucesso. Curioso, não? Meio mundo circula pelas ruas sobre modestos, lerdos e arranhados 1.0, mas compram revista para saber se o Mercedão bateu o BMW nas pistas. Sonhos vendem bem.
Revista de Decoração
Folheio avidamente procurando aqueles "antes e depois". Gosto de viver em um planeta onde duas demãos de tinta, capas de sofá e prateleiras transformam um apartamentico de 40m2 em cenário de novela! Claro, eu sei que é tudo balela. Na realidade dessas publicações, colchões custam R$ 8.000 e pessoas não bagunçam a casa. Sim, por que já notou como fotos de decoração trazem sempre um ambiente imaculado? Tênis sujo largado no canto e fogão engordurado não existem para eles.
Revista de Informação
É o nome que se dá para as semanais que trazem capas bombásticas com o Maníaco do Parque, a queda do World Trade Center e as contas bancárias imundas de Ali Maluf Babá. Não sei vocês, mas todo domingo eu tenho o ritual de sair de casa e, na rua, esticar o pescoção para toda e qualquer banca tentando ler "a capa da Veja", "a capa da Época". Ok, ok… a verdade é que, nessa segunda, me interessa mais a sessão de Cartas. E saber se a coluna Garotas Que Dizem Ni ganhou comentários na semana. Sou mãe coruja.
Revista de Viagem
Disparado, são as minhas prediletas. Se mostrarem cidades repetidas como Buenos Aires, Londres ou Roma, eu paro para ler. Se trouxerem lugares estapafúrdios como Zimbábue, Ilhas Faroe ou Minsk… paro mais ainda. O melhor sobre revistas de turismo é viajar com a imaginação naquelas páginas. Principalmente quando a matéria revela detalhes sobre o cotidiano em paragens distantes do mundo – que provavelmente nunca vamos sentir de perto, mas quem liga? Até já entrei na brincadeira: mandei uma foto para a sessão de leitores de uma dessas publicações e adorei ver minha careta representada na banca de jornal. Cada vez mais é um prazer adentrar esse microcosmo.
Eu tô aqui dentro!