quinta-feira, 6 de maio de 2004

Nossa família postiça

É normal, no período mais tenro da idade escolar, crianças chamarem professora de "tia". Daí, os anos passam – e de repente você se dá conta de que cresceu: as lições dificultam, a lancheira é aposentada e os profissionais do ensino não são mais chamados pela carinhosa alcunha familiar. Acontece que a necessidade de nomear pessoas como parentes é inerente ao ser humano, principalmente se ele estiver no colégio.

A tia principal, aquela que passa lição no quadro negro e dá bronca quando engatamos num papo paralelo no meio da aula, perde em carinho e ganha em respeito ao virar "professora" ou, pior, "mestra". Mas há muitos outros tios e tias na fauna de uma escola. Apesar de serem importantes para nosso desenvolvimento, nunca foram chamados pelo nome próprio – e sim por um apelido auto-explicativo.

Pois eles serão sempre, eternamente e universalmente...

... o tio do portão
Ao controlar todas as entradas e saídas dos alunos de uma posição privilegiada, ele era o funcionário que escutava as desculpas de quem chegou atrasado e de quem queria sair mais cedo. Fazer amizade com esse tio ajudava aqueles que não conseguiam acordar tão fácil pela manhã – como eu. E aqueles que sempre perdiam a hora bem na semana de provas bimestrais – como eu. Outro aprendizado em minha relação diária com o moço foi: é sempre mais fácil entrar na escola do que fugir dela.

... a tia da limpeza
A pobre mulher exibia na face todas as mazelas decorrentes do ato desumano de limpar a imundice que os alunos faziam no intervalo. Era só tocar o sinal de entrada para as salas de aula que lá ia ela esfregar o chão cheio de batata chips, pedaço de queijo e papel de bala. Também era cruel manter a limpeza do banheiro. Por isso ela se vingava colocando como sabonete líquido uma baba pink e viscosa que fazia a mão ficar mais nojenta após a torneira. E as toalhas de papel, ásperas como lixa d'água?

... o tio do sinal
De tão temível, esse tio ganhou até um apelido de gala: bedel. Sua função era combater os hormônios em ebulição da garotada e enfiar todos os adolescentes dentro da classe após o sinal tocar. Ou seja, ele consistia naquele mala que sempre atrapalhava as trocas de papel de carta entre as meninas, o jogo de bafo entre os meninos, as conversas entre todos e o flerte inocente dos casais recém-formados. Se você chegasse atrasado na escola, ele seria a segunda pessoa para quem implorar a entrada.

... a tia da cantina
Um mal necessário. Assim eu qualifico a tia da cantina. Ela era a pessoa que ficava com toda a nossa mesada na cruel época em que mamãe não mais preparava nosso lanche e sim dava dinheiro para comprar algo naquele estabelecimento duvidoso. Sabendo disso, a esperta mulher cobrava os olhos da cara por um X-Salada capenga, com mais maionese genérica do que qualquer outro ingrediente. Além disso, ela era mestra em empurrar balinhas de canela como troco. Dinheiro, só embolsava.

... o tio do cachorro-quente
Eis a alternativa à tia da cantina. Numa esperteza do bem, esse tio plantava seu carrinho de cachorro-quente do lado de fora do portão da escola. Era uma luta para conseguir passar o dinheiro e pegar o delicioso sanduíche pelas grades no meio de todos os outros consumidores. Mas a fome e a vontade eram maiores do que a preguiça de enfrentar a multidão desenfreada. E o lanche... uma delícia! Até hoje eu sonho com aquele cachorro-quente. Aliás, comeria um agora. Tio, capricha no purê!

... a tia da diretoria
Também conhecida como "supervisora", essa tia fazia a triagem dos alunos baderneiros. Dependendo do delito, ela dava a punição. Por exemplo: se fosse algo leve, tinha a autoridade de soltar a bronca ali mesmo; se fosse algo grave, escoltava pessoalmente o infeliz até a sala da diretora – por sua vez, uma mulher de reputação terrível. Como passei meus anos escolares na santidade (nunca pulei o muro, sabotei o laboratório de química, nem fumei escondido no banheiro), ela gostava de mim. Ufa.

A sobrinha aqui agradece.

Vivi Griswold às 10:30 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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