O desenrolar da História (com H maiúsculo) acontece independentemente de nossa passagem por esse mundão muito louco da pesada. As datas do nascimento e morte de alguém colocam a pessoa como testemunha de um determinado período. Quem veio antes ou quem vier depois será brindado com outros fatos importantes – e assim acontecerá ad infinitum, até um meteoro gigantesco resolver se chocar com a Terra sem um herói hollywoodiano par nos salvar.
Na semana passada, escrevi este texto sobre os momentos que vivenciei tendo nascido em 1977. Alguns deles me marcaram de tal maneira que me lembro até hoje – e pretendo continuar lembrando – do que estava fazendo na hora exata em que as notícias chegaram até meus ouvidos. Coincidência ou não, a grande maioria deles acabaram sendo tragédias. Fazer o quê se a memória humana é movida a sangue e lágrimas?
Por outro lado, fiquei pensando quais momentos gostaria de ter presenciado se pudesse escolher. Ou se já tivesse apagado 104 velas. Ou se fosse uma highlander. São eles:
Transmissão de "A Guerra dos Mundos" - 30 de outubro, 1938
Naquele dia, Orson Welles (diretor de "Cidadão Kane") leu, em seu programa de rádio, um roteiro que havia escrito sobre uma invasão alienígena da Terra. O problema é que o moço foi tão convincente na interpretação que causou pânico nos Estados Unidos: os ouvintes realmente acreditaram que homenzinhos verdes estariam pousando em seus quintais. Deve ter sido uma baderna deliciosa.
Estréia no cinema de "O Mágico de Oz" - 6 de junho, 1939
Hoje não tem tanta graça em assistir ao filme mais famoso de Judy Garland – a cada fim de semana, a máquina do cinema americano chega com outra novidade em termos de efeitos especiais e tecnologias da sétima arte. Mas imagine como não foi sentar num cinema e ver tudo aquilo pela primeira vez na tela grande. Fico só pensando na surpresa dos espectadores quando o filme ficou colorido!
Comemorações pelo fim da II Guerra Mundial - 1945
Não consegui achar a data precisa. Só sei que em algum momento de setembro daquele ano os cidadãos dos países vencedores saíram às ruas para comemorar a trégua após seis anos de conflito. Existe até uma foto famosa de um beijo entre um soldado e uma enfermeira. Tempos depois, soube-se que tudo foi fabricado a pedido do fotógrafo. Tudo bem: não deixa de ser uma bela cena para se presenciar.
Marilyn Monroe cantando para Kennedy - 19 de maio, 1962
A festa de arromba pelo aniversário do então presidente dos Estados Unidos estava acontecendo no Madison Square Garden, em Nova York, devidamente televisionada para o país inteiro. Eis que surge a loiraça no palco, trajando um vestido brilhante mais justo que Deus, como diria a minha mãe, e cantando "Parabéns a Você" com uma voz sussurrada. Imagine a cara de ódio da Jackie vendo tudo aquilo!
Lançamento do primeiro álbum dos Beatles - 22 de março, 1963
Eu, como fã atrasada que sou, gosto de me imaginar pegando e ouvindo um disco fresquinho dos Beatles – sensação que não tive e nunca vou ter. "Please Please Me" chegou às lojas naquela data de 1963, e aposto que muitas pessoas devem ter pensando "xi, mais uma bandinha de meninos cabeludos" ou "é moda, daqui a pouco eles cansam". Outro tanto deve ter desmaiado de emoção. Eu estaria no segundo grupo.
Show de Elvis Presley vestido de couro - 01 de janeiro, 1968
Quando o Elvis começou na tevê americana, os conservadores estipularam que só podiam filmá-lo da cintura para cima, sem mostrar todo aquele rebolado. Os anos se passaram e a mentalidade mudou um pouco. O resultado foi esse show aí. Não me lembro do Rei ter estado mais lindo do que naquela ocasião: todo vestido de couro preto e cantando em cima de um palquinho multicolorido feito drops.
Viagem do homem à Lua - 21 de julho, 1969
De todos os acontecimentos históricos que não presenciei ao vivo, talvez esse seja o mais mágico. Mesmo tendo algumas dúvidas sobre o fato – tá bom, confesso que é só pelo meu gosto por conspirações –, nem consigo começar a imaginar a emoção que deve ter sido ligar a tevê e assistir àquele passeio em câmera lenta de um tal de Neil Armstrong. Foi um grande passo para a Humanidade que eu, droga, perdi.
Final da Copa do Mundo no México - 21 de junho, 1970
Tudo bem. Quem me conhece sabe que eu não ligo a mínima para futebol. Mas ainda assim faço bico por não ter assistido, em tempo real, a finalíssima da Copa do México – vencida, logicamente, pelo Brasil. O fato é que adoraria ver o talento de Pelé em ação. Afinal, para mim, hoje ele é só um mala que se refere a si mesmo na terceira pessoa e faz propaganda de remédio contra impotência. Credo.