segunda-feira, 26 de abril de 2004

Nem vivo, nem morto

Eles são a escória dos filmes de terror. Não são poderosos como espíritos do mal, muito menos traiçoeiros como psicopatas. Tampouco demonstram inteligência, método e perspicácia, características presentes nos melhores vilões do gênero. Muito pelo contrário – são lentos, burros e movidos apenas por um sentimento primário e instintivo: a fome. Então por que é que eu morro de medo de zumbis?

Tudo começou em alguma noite de domingo de 1984. O Fantástico exibiu, pela primeira vez na televisão brasileira, o videoclipe "Thriller", de Michael Jackson. A imagem dos mortos saindo dos túmulos e andando pelas calçadas me assombrou por dias. Talvez foi culpa das roupas comuns rasgadas e sujas, ou do andar torto e arrastado, ou daqueles olhos fixos e sem-vida. O fato é que, desde aquela noite, tenho uma atração meio mórbida por produções assim.

Os filmes podem exibir todos os clichês e conter os sustos mais previsíveis da sétima arte. Não adianta. Eu caio sempre. E meus últimos 15 reais pagos para assistir a cenas de canibalismo sanguinolento saíram da minha carteira ontem.

"Madrugada dos Mortos" acompanhou direitinho a cartilha do beabá dos mortos-vivos. Tem um grupo de poucos humanos no meio de uma cidade inteiramente tomada por zumbis? Tem. Tem um mané chato entre o grupo que morre rapidinho por ser mala? Tem. Tem o bobão que foge por último mas é pego pelo pé e devorado em segundos? Tem. Tem um casal formado apesar do apocalipse final ocorrendo lá fora? Tem. Tem um plano mirabolante que cai por terra tão logo alcançam a rua? Tem.

Assim aconteceu com "Extermínio", terror claustrofóbico de primeira grandeza. Com "Resident Evil", baseado no meu jogo de videogame favorito. E com o tosco e sensacional "A Volta dos Mortos-Vivos". Desde que a indústria cinematográfica descobriu o filão do além-túmulo, o que vemos é um repeteco infindável do mesmo mote central. O que muda? Os zumbis, ora! Cada vez melhores, em maior quantidade e mais famintos. Material certo para uma noite mal dormida.

Um dos fatores que mais me botaram medo em “Madrugada dos Mortos” – além do primeiro parto de um bebê zumbi já exibido na telona – é que não há explicação alguma. Um belo dia, alguém vira morto-vivo. Morde outra pessoa, e ela vira também. Em minutos, a cidade está tomada pelos monstrengos abobalhados. A única satisfação é "no dia em que faltar espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a terra". Nada de vírus mutante, macaco-rato maligno ou gás tóxico. Apenas acontece – uma premissa aterrorizante.

Outro detalhe de que gostei na recente produção foi... tá tudo dominado. Fique até o final dos créditos e você descobrirá o inevitável: o mal venceu. Sempre me irritei profundamente com filmes de zumbis que acabam bem. Como algo que se alastra com uma simples mordida pode ser estagnado? Na vida real, uma gripe acontece lá no sudeste asiático e logo desembarca aqui no porto de Santos, certo? Então.

Mal posso esperar pelo próximo título do gênero. Enquanto isso, vou treinando aqui em casa o meu andar de morta-viva. Ou vou sonhando em fazer parte da figuração – é só falar "aaaaahhhhh" infinitamente e pronto. Ou, mais provável, vou seguindo com o meu pavor e admiração para com os vilões anônimos mais incompreendidos do cinema.

zumbi.jpg
Mooooore brains!


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Medinho bom

Agora não é mais segredo: eu morro de medo de filmes com zumbis. E você, leitor? O que te bota mais pavor em produções aterrorizantes? A enquete está à espreita no Fórum.


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Grandes Clássicos Também Votam - Parte II

Paquita Maria Sanchez: Sua mãe comeu meu cachorro!
Lionel Cosgrove: Ufa, pelo menos zumbis não comem computadores. Então deixe de chororô e vote logo nas Garotas antes que o iBest só tenha mortos-vivos!

[Muito bem, Lionel. Mesmo com o mundo perdido em "Fome Animal" ele encontra forças para votar em nós. Faça o mesmo antes que seja tarde!]

Vivi Griswold às 10:30 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold