quinta-feira, 22 de abril de 2004

Nos tempos de colégio

Eu era uma garota magrela, de cabelos compridos divididos ao meio, presos em duas tranças. Quando matava aula, ficava empinando pipa na pracinha e a diversão principal da minha turma de amigas era jogar batalha naval durante as aulas mais chatas ou atirar pedacinhos de papel branco no cabelo das meninas frescas que sentavam na frente. Depois, gritávamos: "olha, a fulana está com caspas gigantes!".

Se você imaginou que isso tudo acontecia quando essa humilde escriba contava uns 7 ou 8 anos e canelinhas finas debaixo do short do uniforme, desculpe. Eu fazia tudo isso aos 16 e 17, já no colegial – embora ainda com canelinhas finas, debaixo das saias coloridas. Não que eu me orgulhe de tudo dessa época (a parte sobre os berros de "caspas gigantes" ainda me constrangem), mas eu fui uma adolescente feliz.

Ainda guardo meus 17 verões como um dos tempos mais bacanas da minha vida. E se, nos filmes de escola americanos dos anos 80, as tribos são perfeitamente delineadas (tem as líderes de torcida, os nerds, os esportistas e os losers), no Colégio São Bernardo a coisa não era bem assim.

Continua difícil explicar de que turma eu fazia parte. Como todos sabem, fazer parte de um grupo é fundamental para os indivíduos que se encontram nessa perigosa fase da vida. Acho que eu tinha um pouco de cada.

Eu era bem conhecida na escola (no bom sentido, claro). Mas isso porque estudava lá desde que era um toquinho de sete anos. Com dez anos contabilizados no mesmo lugar, não tem como não conhecer todo mundo. Isso dava uma certa credibilidade para me livrar quando aprontava alguma.

Certa feita a Roberta, amiga de fé e irmã camarada de longuíssima data, teve a brilhante idéia de grudar o apagador bem alto, na parede perto da janela, e tentar, com sucessivos chutes, descolá-lo dali. Claro que uma das pernadas da moçoila acertou em cheio o vidro da sala – e foi caco para tudo quanto é lado.

Contamos com a minha fama de boa moça para se desculpar com a temida dona Bete, coordenadora de alunos. Inventamos uma história de que tínhamos ficado nos empurrando e eu bati o braço na janela. Perto dos danos físicos que a pobre Clarinha podia ter sofrido, um vidro quebrado não era nada…

Outra vez, depois que uma excursão foi cancelada, cansamos de esperar os inspetores ligarem para todas as mães virem buscar as crianças e decidimos sair por aí. Fomos recapturadas por uma das diretoras, que freou o veículo numa rua perto da escola, fechando a gente na calçada e berrando: "todo mundo pra dentro do carro já!". Foi meio assustador. Mas passamos incólumes, dizendo que íamos para a casa de uma das meninas, moradora das vizinhanças escolares. Ninguém contestou.

Mesmo assim, nunca tomei uma advertência ou uma suspensão, nem sequer fui parar na sala da diretora para responder por encrencas. E olha que falsifiquei dezenas de assinaturas de mães para tirar todo mundo da escola mais cedo.

Apesar de tudo, eu também tinha fama de CDF, o equivalente brazuca para os nerds. Tanto que uma vez, no colégio, quando alguns meninos roubaram um provão - a temida prova bimestral –, correram para minha casa num sábado à tarde para que eu respondesse às perguntas. Assim, iríamos todos com o gabarito no dia seguinte! Nada melhor. Os dois se gabavam do fato ao entrarem na minha cozinha: "rasgamos o pacote, colamos tudo de volta e ficou perfeito!"

No dia seguinte, parecíamos aquelas crianças que tiram o papel do delegado no "Assassino e Detetive": um sorriso bobo ia de orelha a orelha. Deu o sinal, sentamos e esperávamos pelo teste quando entra a Manon, mais temida ainda coordenadora de alunos: "o provão está cancelado porque alguém mexeu nos pacotes e fez um serviço tão porco que dava para ver a quilômetros de distância". Droga.

Nunca descobriram quem estava envolvido no crime. Agora que a escola fechou, acho que é seguro confessar. De qualquer maneira, guardo boas lembranças dos meus dias de colégio, fosse empinando pipa na praça, jogando batalha naval, fumando escondida no banheiro, resolvendo provões afanados ou até gritando: "caspas gigantes!". Espera aí. Essa última eu podia passar sem…

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Grandes Clássicos Também Votam – Parte II

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Clara McFly às 05:26 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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