Segundo o Aurélio, o advérbio “nunca” significa “em tempo algum; jamais”. Eu acho essa palavra uma das mais fortes e mais perigosas da língua portuguesa. Porque ninguém pode afirmar com propriedade que nunca vai agir de uma certa forma – o futuro vive nos pregando peças. Também é cruel responder assim a alguém que possui uma certa expectativa de resposta afirmativa.
Mas eu vou me arriscar a dizer “nunca” algumas vezes neste texto. Se não posso me dirigir ao dia de amanhã, então, vou voltar ao passado.
Meus dias como criança foram repletos de travessuras melequentas, brincadeiras na rua, aventuras no quintal da casa da minha avó, desafios à gravidade, apostas de velocidade, muitos machucados e todo o resto do pacote incluso quando o assunto é uma infância bem vivida. Relembrando agora, porém, existiram certas vivências pelas quais eu não passei.
Elas estão longe de serem positivas – mas se na época eu ganhei por não ter experimentado certas coisas, hoje eu perco em histórias divertidas para contar. Pois eu nunca, nunquinha...
... peguei piolho
A idéia de cultivar bichos nojentos sugando meu couro cabeludo e povoando minha cachola pode não ter muito apelo sentimental, ainda mais agora. Mas quando eu era pequena, ficava com uma pontinha de inveja mórbida de quem tirava a semana de folga porque pegou piolho. Passava alguns minutos diários na frente do espelho à procura de lêndeas – só encontrava mesmo poeira e pedaços de folha.
... quebrei o braço
Era uma alegria quando algum coleguinha quebrava o braço e aparecia exibindo aquele gesso branquinho, pronto para vários recados escritos com bic 4 cores. No fundo, eu ficava me corroendo: ora, também queria um gesso cheio de mensagens só para mim! E uma tipóia, e uma professora me paparicando. Só fui quebrar uma parte do corpo quando adulta: o dedo do pé no móvel da sala. Patético.
... apanhei de cinto
Eu era bem levada e saidinha, porém meus pais jamais me submeteram a castigos como esse, destinados a fugitivos de masmorras medievais. Muito menos usaram chinelo. Só levei uma palmada no traseiro certa vez – e, pelo que me lembro, mereci. Mas quando alguma criança dizia com cara de vítima que tinha apanhado de cinta, todos em volta ficavam comovidos. Eu queria comover também!
... fiquei de recuperação
Lembro-me da sensação boa que era receber um boletim azulzinho ano após ano e, já no final de novembro, chegar em casa para as saudosas férias de verão. O primeiro dia era delicioso, o segundo também... No terceiro, já começava a ficar chato. Principalmente porque a maioria de meus amigos acabava pegando aulas de reforço. Adorava ser aluna aplicada, mas não gostava de me sentir excluída.
... tomei Benzetacil
Bastava ouvir o nome da tão temida injeção para qualquer criança ficar arrepiada de medo. Esse era o termo que mais me assustava na infância, e até rezava diariamente para meu anjo da guarda me proteger de qualquer incidente que resultasse numa picada daquelas. Minha vizinha, que foi atropelada, tomou várias e virou estrela da rua – as outras crianças paravam para ouvi-la descrever a sensação.
... fiquei de castigo
Quando eu ia chamar alguma colega para brincar, de vez em quando aparecia a mãe dizendo “a Sandrinha não pode hoje, ela está de castigo”. Como nunca fiquei em um, restava-me imaginar o que era o mítico castigo. Permanecer com a cara virada para a parede e fazer lição até o lápis virar um toco eram meus planos favoritos. Daí voltava para casa e brincava sozinha – numa espécie de castigo também, né?
... fui picada por abelha
Sempre cultivei um medo terrível de insetos alados com ferrões no traseiro. Não podia ver uma abelha, vespa, marimbondo e mamangava (essa última a pior, com aquele corpão preto) que largava tudo o que estava fazendo e ia me aninhar no esconderijo mais próximo. Só que nenhum desses bichos chegou a me picar, tadinhos. Taí um medo totalmente desprovido de lógica. Mas que eu NUNCA quero provar.
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Diga xis, Coelhinho!
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