quarta-feira, 7 de abril de 2004

A contadora de histórias

Era uma vez uma menininha sardenta apelidada de Lianica pela avó. No primeiro dia de aula, ela levantou a mão e perguntou para a professora se podia virar a página do caderno. Mais experiente, Lianica fez o colégio, passou pelo cursinho, teve uma filha e cursou medicina.

Hoje a menina cresceu, teve mais dois rebentos e passa os dias atendendo num consultório, praticando seriamente ioga e cuidando com carinho da família gato. E, tomara, ela ainda encontrará um príncipe encantado e será feliz para sempre numa casa cheia de árvores.

Não adianta. Por mais que eu tente, nunca serei tão boa contadora de histórias quanto Lianica – a menina descrita nos primeiros parágrafos e também minha querida mamãe. A primeira lembrança que eu tenho na vida é estar deitada na cama, com o polegar enfiado na boca, maravilhada pelos contos de fadas que ela colecionava e apresentava tão bem antes de eu dormir.

Quando eu era pequena, mamãe fazia faculdade e depois residência. Ela se formou quando a filhota aqui somava por volta de sete anos. Portanto, foram várias as noites sem a presença dela por perto. Mas isso, nem de longe, me deixava infeliz. Talvez, de um jeito que a idade me permitia, eu já admirava aquela doçura, que além de linda sempre foi uma lutadora e sempre me deixou orgulhosa.

Lembro-me que, naquela época, quando ficávamos juntas, às vezes ela estava tão cansadinha que até os contos de fadas saíam meio capengas. “Daí, a Branca de Neve pegou a enceradeira” ela dizia entre o sono e a vigília, e eu a cutucava, irritada, “não, mãe, não tem enceradeira na história”.

Além de fazer uma livre adaptação de Branca de Neve – e enfiar tecnologias domésticas no casebre dos sete anões – minha mãe é cheia de outros talentos.

Soa batido falar que não há comida como a da mãe da gente. Mas essa é uma das facetas de Lianica que eu aplaudo. Tudo o que ela bota nas panelas vira uma gostosura quando chega à mesa. Não existe purê mais gostoso, nem a couve-flor gratinada mais apetitosa. Muito menos um bolo de chocolate com cobertura, considerado “tão fácil de se fazer” pela cozinheira, mas que eu nunca consegui recriar. Tudo bem, já fico feliz em ter feito meu arroz ficar quase como o dela.

Mamãe ainda por cima não tem lá muita cara de mãe. No lado materno da família, aliás, a idade sempre engana muita gente: ninguém aparenta no rosto (muito menos no espírito) os anos acumulados na vida. É por isso que Lianica parece minha irmã mais velha, e eu sou obrigada sempre a mostrar minha carteira de identidade quando entro em bares. Puxei mamãe, que hoje ostenta cachos loiros e um corpinho de miss.

Sempre achei Lianica a cara da Elizabeth Montgomery, a Samantha da série “A Feiticeira” – só falta mesmo fazer mágicas. Pensando bem, não falta: ela foi e continua sendo a pessoa que mais injetou magia na minha vida. E olha que nem usava o nariz.

Feliz aniversário, mamãe.

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Vivi Griswold às 09:14 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Vivi Griswold