quinta-feira, 1 de abril de 2004

Lembrancinhas pós-bolo

Coleção é como calo no pé: cada um tem o seu. Algumas pessoas juntam selos. Outras, brinquedos antigos. Tem gente que soma mais de cem pingüins de porcelana. Tem gente que consegue encher uma pasta apenas com cartões postais. Eu mesma tenho um certo número de estatuetas de gatos na estante. E minha avó, Dona Diva, coleciona lembranças de primeiros aniversários.

Quando a criança faz um ano de vida, é tradição entre certas famílias confeccionar um cartãozinho para entregar aos parentes e amigos como um mimo. Normalmente, o cartão vem com a foto do bebê e um versinho inocente que celebra a data. Hoje as lembrancinhas ainda são usadas, porém todas vêm estampadas com Piu-Pius, Teletubbies, Nemos e em formato de imãs de geladeira.

O bacana mesmo são cartões de antigamente, como os que minha avó guarda no fundo da gaveta com cuidado. Melhor do que olhar para rostos amarelados e ler poeminhas antiquados é ouvir a história de cada um pela boca da vovó. “Essa é disquitada” e “Esse, coitado, morreu” são frases que aparecem de vez em quando no meio da apresentação. Os que não são rotulados com veemência pela dona da coleção apenas envelheceram ou se perderam no tempo.

O mais antigo data de setembro de 1949. Um tal de Francisco Guarda olha para o lado, exibindo uma chuca encaracolada no topo da cabeça e um macacão bordado com um barquinho. Não faço a menor idéia de quem é essa pessoa. Se ele ainda está vivo, se tem netos, se possui uma saúde boa. A única coisa que eu sei é como Francisco aparentava quando tinha um ano de idade. Não é curioso?

Já Marco Antônio estava assustado quando bateram a foto. Desconfio que ele não foi com a cara do fotógrafo profissional. O pobre bebê estampado no cartão tem olhos arregalados e boca entreaberta – talvez um choro seguiu-se à sessão de modelo. Ao lado da imagem, o escrito “Minha vida é um jardinzinho/ Onde a alegria ninhou/ Ao lado dos papais queridos/ Colho hoje minha primeira flôr". Abaixo, “Salve 4-2-62”.

Também não estava feliz a então miúda Márcia Regina. Ela aparece com cara de quem acabou de derramar muitas lágrimas. Passado o stress, sobrou um bico e um par de olhos fixos (provavelmente a mãe ficou fazendo micagens atrás da câmera). Seu versinho, um dos melhores: “Apesar de pequenina/ E de não saber falar/ Com beijos eu agradeço/ Os que vierem me abraçar”. Espero que tenha lotado de parentes a festa da menina, ocorrida em 17 de dezembro de 1965.

“Guardando meu retratinho, de mim te lembrarás” diz o começo do poema no cartão de Agnaldo – o bebê mais estranho de toda a coleção. Ao contrário dos outros, ele não está usando sua melhor roupa. Reparando bem, o coitado aparece como veio ao mundo. Fiquei com pena. Fora que Agnaldo, além de possuir um nome que não combina com sua condição de infante, é o mais mal-humorado. Se bem que eu também estaria se mamãe tirasse minha roupa para fazer essa lembrança. Tomara que o resto de 1964 tenha sido mais divertido para ele.

Foi sensacional a tarde que passei revisitando cada um dos cartões daquela deliciosa coleção. Para apimentar o quadro, minha avó e minha mãe estavam presentes dando gargalhadas da cara das pessoas retratadas. Depois de olhar todos eles, escolhi meu favorito: o da Maria Donata – uma prima distante, mas com um sorriso encantador. Pelo menos no primeiro ano de vida.

mariadonata.jpg


* * * * * *


Especial de Aniversário do Garotas

Por falar em lembrancinhas de um ano...

Daqui a exatos 10 dias nosso sítio rosado apaga sua primeira vela. Passaram-se 365 pequenos números de calendário desde os primeiros textos – que saíram capengas, longos demais, curtos demais e estranhos. Porque nós demos o pontapé inicial, e você, leitor, chegou e começou a moldar o que fazemos hoje.

Como havíamos prometido, finalmente é hora da revelação. Respire fundo e clique já aqui para saber todos os suculentos detalhes de nossa celebração especialíssima!

Vivi Griswold às 08:40 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold