segunda-feira, 29 de março de 2004

Após o trauma, vem o clássico

Na primeira vez que eu vi “E.T. – O Extraterrestre”, fábula de Steven Spielberg sobre um ser de outro planeta perdido nesse nosso mundão (ou melhor, nos Estados Unidos, claro), achava que a sigla poderia significar algo como “Espectador Traumatizado”, “Espécime Terrível”, “Experiência Trágica” ou ainda “Eu Tenho – que sair da sala de projeção”.

Era o ano de 1982, e eu somava apenas cinco anos de idade. Minha mãe teve a brilhante idéia de me levar ao cinema para assistir ao simpático filme, pois todos os filhos de todas as amigas dela tinham achado a coisa mais linda. Bem, o resultado eu já contei em detalhes aqui – mas posso adiantar que foram anos e anos de noites infantis mal-dormidas por conta da criatura.

A produção é escura, cheia de sombras e cenas em meia-luz. Os homens maus nunca mostram o rosto, e se limitam a correr de lá para cá com lanternas e roupas anti-radiação. As crianças passam a maior parte da história gritando ou chorando. E o E.T.... bem, é um bicho assustador para dizer o mínimo – imagine você topando com um anão de cabeça achatada e que fala com a voz da Nair Belo.

O trauma só chegou a um desfecho em 2002, 20 anos após aquela fatídica sessão, quando criei coragem e fui ao cinema para me reencontrar com o monstrinho. Duas décadas se passaram, e eu havia crescido. O bicho já não me botava mais (tanto) medo, e eu saí da sala com um sorriso de vitória pessoal por ter provado para mim mesma que aquele terror havia, enfim, terminado.

Quando descobri que “E.T. – O Extraterrestre” fazia parte da programação da edição paulistana do Vivo Open Air, fui correndo comprar meu ingresso. Tinha de seguir com a tradição de assistir ao filme todas as vezes em que ele esteve em cartaz na telona.

O intervalo entre a segunda e a terceira foi de apenas dois anos, mas abriu meus olhos para a maravilha que Spielberg criou. Desta vez, não tinha trauma para ser superado. Desta vez, a tela era gigante e o céu, visível. Desta vez, estava com a Clara em minha esquerda e a Flá em minha direita, engrossando o coro do funga-funga.

É incrível como o diretor orquestra as cenas. Parece que ele está a toda hora soprando no seu ouvido “agora você vai rir”, “agora você vai se emocionar”, “agora você vai se levar um susto”. E a gente ri, se emociona e se assusta, obedecendo cada um dos comandos invisíveis. Se isso não é ser um maestro digno de nota, não sei o que mais pode ser.

Eu e as meninas choramos do começo ao fim. Não apenas nas cenas feitas de propósito para arrancar lágrimas da platéia, mas naqueles pequenos trechos que hoje compõem a história do cinema. Quando a bicicleta de Elliot levanta vôo ao luar, a platéia testemunha um clássico. E, para meu espanto, flashes de máquinas fotográficas iluminaram a noite – pessoas quiseram registrar o momento. Fiquei emburrada por não ter tido a mesma idéia.

Pena que meu terceiro encontro com o E.T. tenha durado tão pouco. Olha só, já estou em casa, escrevendo meu texto de hoje (o relógio do computador marca 00h07). Fico feliz por dormir embalada por tudo o que o cinema deve ser: fantasia e emoção. E também, claro, por saber que o extraterrestre já não me assusta mais.

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Chuinf... Snif... Buáááá
Vivi Griswold às 10:09 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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