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Contam-se histórias Pela manhã, uma pequena vila de casas numa cidade qualquer recebe os raios de sol que inauguram o dia sobre o telhado do primeiro de três sobrados geminados (ou germinados, como diria a Mirtes). Lá dentro, a dona da casa já sabe que a sala ampla, forrada de assoalhos claros e com algumas almofadas lilases aqui e ali, será tomada por amigos e amigos de amigos em poucos minutos. As vizinhas dos dois lares subseqüentes também já estão habituadas a essa rotina de visitas. Por isso, adentram o lar amigo com garrafas de café e chocolate, enquanto sua feliz proprietária tenta terminar de bater à mão e em tempo um bolo de fubá. Como sabido, alguns minutos depois o sobrado começa a se encher de gente disposta a ouvir. Como sempre, eles esperam no salão, acomodando-se nas almofadas e conversando entre si – hábito que puderam adquirir há pouco. Não demora muito para que a dona da casa se junte ao seleto público que a aguarda e desfie sua história do dia, a razão para todas aquelas pessoas de idades e vivências diferentes estarem ali. Quando as palavras da pequena figura ruiva terminam, o grupo agradece. Alguns deixam recados escritos em papeizinhos coloridos, pregados na porta da geladeira. Saem contentes e, por dentro, despertaram memórias valiosas. Riram bastante e seguem cada qual seu dia, mais satisfeitos. As três amigas e vizinhas sorriem também, trocam comentários e se despedem. Pouco depois do almoço, o ritual se repete na casa do meio. Na sala de estar, com paredes em tons de cor-de-rosa e porta aberta, as três esperam pelas bem-vindas visitas. Já arranjaram a mesa com bolos, sorvete e paçoca Amor. É a vez da dona da segunda casa, uma moça de cabelos pretos feito a asa da graúna, falar. Quando todos se vêem acomodados (alguns estão voltando à vila que já visitaram pela manhã; outros se fazem presentes pela primeira vez), ela conta a eles sua história do dia. As reações são das mais diversas. Ouvem-se risos, gritinhos de espanto e alguns "não acredito, eu também fazia isso!" aqui e ali. As outras duas amigas prestam tanta atenção quanto o público, que teve a gentileza de ir até o lugar só para reavivar o prazer de ouvir uma história. Satisfeitos da sobremesa de doces e palavras que lhes foram servidas, quando o conto chega ao fim algumas pessoas deixam mais recados – e ali também revelam suas histórias e vão embora mais felizes – assim como as duas moradoras das casas vizinhas. É quase noite agora, e os grilos estão cantando no jardim. Não há um horário marcado nem é preciso telefonar: as duas contadoras que já cumpriram sua missão do dia chegam à derradeira casa da trinca, de paredes amarelas e porta azul. À dona daquele sobrado oferecem jarras de chá, preparado para os que vão chegar. Na cozinha, uma garota de cabelos loiros tira do forno as últimas assadeiras de biscoitos. A sala, de tacos de madeira, espera pela visita final. O ritual se repete com uma sincronia espantosa e coroa o assombroso entendimento mudo que existe entre as três anfitriãs e seus ouvintes: eles chegam, se acomodam, ouvem o último conto do dia com atenção infantil. Eles vêm atrás de crônicas sem lição de moral, sem maiores pretensões, sem mensagens pré-estabelecidas. São apenas histórias que eles julgam bem-contadas, que tratam de assuntos dos quais eles gostam de se lembrar e sobre os quais concordam ou discordam com igual entusiasmo. Riem, choram, põem-se indignados. Agradecem com carinho e respeito, deixam suas mensagens debaixo do vaso de gérberas e saem seguros com a idéia de que amanhã começará tudo de novo. Desse mesmo conforto compartilham as três amigas, que sorriem silenciosas e muito certas do que escolheram fazer na vida. Esse seria o Garotas na era pré-internet. (E se eu não tivesse pintado o cabelo de ruivo, é claro). Clara McFly às 06:00 PM |
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