segunda-feira, 15 de março de 2004

De volta à Ilha Quadrada

Um dos conselhos que ouço desde sempre é “não reclame de barriga cheia”. Sei o que significa literalmente e no sentido figurado. Fico na dúvida, porém, sobre como isso se encaixa no ramo profissional. Quando estamos reclamando demais? Quando os problemas existem mesmo e quando é frescura? Bom, voltei a trabalhar faz 15 dias. E esse dilema nunca me assombrou tanto.

Já diria o filósofo chinês no alto da colina: se trabalho fosse bom, não precisavam pagar a gente. Se “Eles” nos reembolsam em dinheiro todo fim de mês, é porque exigem muito do nosso intelecto, força física e mental, tempo e paciência – nesse último caso... nossa, como exigem!

Mesmo que o mercado de trabalho tenha para mim esse cenário sugador e nada romântico, fui obrigada a voltar para ele. Depois de pedir a conta do último emprego em novembro de 2003 para me dedicar à Ni Enterprises, precisei encarar outra vez a rotina de hierarquia, horário, salário e o não-uso-de-pijama-por-quanto-tempo-eu-quiser.

Trabalhar para Vivi, Clara e Mim nesse tempo compensou muito, ao contrário do que parece. Rendeu frutos, pagou contas, ajudou a empresa a crescer um bocadinho. Mas como meu apê de 1940 precisa de reforma, tive que aceitar uma oferta mais rentável. Um dia explico direito, que isso é conversa para outro pôr-do-sol.

O fato é que, há duas semanas, sou novamente parte integrante de uma redação jornalística – o que lembra muito a situação dos caras levados para a “Ilha Quadrada”, como inventou aquela propaganda de cerveja. Encontro-me em um clima sem fortes emoções, como o que cerca os bebuns capturados. Não por culpa de ninguém em especial (só minha mesmo, porque sou chatinha).

Mas a primeira coisa que notei foi como todos os personagens continuam idênticos aos já conhecidos! Parece elenco de Big Brother, sempre a mesma composição humana. Tem o cara engraçado, o moço gentil, a menina bacana, a menina enjoada, a recepcionista fofa, o chefe-supremo ligado no 220 volts... Como em todo escritório, aliás. A diferença, aqui, é o chefe-direto: homem doce, sabido e inteligente é aquele ali – o que me dá um alento danado.

O começo foi (está sendo) difícil porque, depois de tantos meses sendo minha própria manda-chuva, é duro acostumar ao ritmo. Toda manhã é como um primeiro dia de aula. Dá vontade de chorar e implorar para voltar para casa. Depois me dão algo para fazer – que infelizmente NÃO É pintura guache com o dedo – e eu me concentro. Mesmo com a angústia bloqueando a garganta como um paralelepípedo.

O problema, acho, é o rumo do “barco”. Para quem sonha ter uma livraria, dirigir um filme, trabalhar para si mesma, ter idéias ao olhar o céu e evitar um ar condicionado nivelado no Ártico, tudo parece errado agora. Provavelmente é frescura – e eu juro que estou tentando não ser negativa ou manhosa em excesso. Mas deixa estar. Segundo um outro ditado que sempre ouço, “o futuro é a gente quem faz”. Eu ainda mudo o panorama dessa tal “Ilha Quadrada”.

Fla Wonka às 01:43 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold