Prometi aqui que, da próxima vez que pegasse um ônibus ou me visse desprevenida debaixo de chuva inclemente, encararia a situação com mais bom-humor. Pois a oportunidade de encarar o coletivo (carinhosamente apelidado de cata-louco por essas bandas) veio antes do que imaginei.
Confesso que sou meio enjoadinha para o transporte público. Não por causa dos bancos rabiscados, do excesso de gentes e cheiros ou dos canos de segurar totalmente ensebados (para isso, aplico a filosofia "lavô, tá novo"), mas sim porque acho muito esquisito dividir um espaço tão íntimo com gente estranha.
Pessoas que nunca vi mais gordas sentam-se mais perto que o meu irmão, quando ele se acomoda no sofá lá de casa. Fico constrangida, achando que tenho a obrigação de puxar um assunto. Porque ninguém pode ficar assim tão perto sem conversar! É como pegar elevador - outra coisa que me deixa apavorada e com a qual jamais me acostumei, por nunca ter morado em prédio.
Mas enfim. Desprovida do quase-inseparável Deep Purple ontem, encaminhei-me para o ponto de ônibus a umas quadras de casa, devidamente munida de um livro, tênis confortáveis nos pés e uma mochila à guisa de bolsa. Fiz sinal feliz e contente para o intermunicipal "Metrô Saúde". E logo comecei a me lembrar desse verdadeiro universo, completo e à parte, que é o mundo dos coletivos. E de como pode ser divertido pegar ônibus, só para ler ou ouvir as indefectíveis frases típicas desse universo, que seguem aí embaixo.
Converse com o motorista somente o indispensável
Logo acima dos degrauzãos de acesso do veículo já figura a inevitável plaquinha. Desde pequena fico a imaginar quem determina o que é indispensável. Se eu estiver passando mal e precisar descer, é indispensável? E se eu avistar um amigo que não vejo há anos passando na calçada? E se eu tiver um palpite para o bicho?
Quer que eu segure?
Existe uma ética de busão que, embora não seja registrada em nenhum estatuto, é sagrada. Quem está sentado deve se oferece para segurar as sacolas, materiais, pastas e acessórios em geral de quem estiver em pé. Aliás, o mundo se divide entre pessoas que seguram e pessoas que não seguram (essas últimas sempre mal-vistas nos coletivos e afins).
Vai descer, motorista!
Quando o motorista se engana e engata marcha antes de todos os passageiros saltarem, começam logo os gritos. O legal é que, primeiro, berram as pessoas lá de trás. Quem está na frente pode perceber que o motorista já ouviu e já brecou, mas ecoa o "vai descê!" numa espécie de corrente. Um opcional é ouvir resmungos maledizentes sobre o condutor, depois de finda a confusão.
Pode abrir lá atrás?
É batata: sempre que você estiver atrasado, o ônibus vai encontrar uns doze tiozinhos com caixas enormes, contendo coisas das mais variadas, nos pontos subseqüentes. Assim, a viagem de 15 minutos dura 25. Tudo porque eles fazem sinal, trocam uma idéia com o motorista, correm com a caixa até a porta de trás, enfiam o negócio lá, correm de volta para a frente e finalmente embarcam.
Tec tec
Essa é a onomatopéia para descrever aquelas batidinhas que alguns cobradores dão no caninho do ônibus, uma mensagem cifrada para os motoristas, que quer dizer: "pode ir, meu filho, que o povo todo já desceu". Eles batem com moedinhas enroscadas em elásticos, pedacinhos de plástico ou com a própria unha, no caso daqueles que, sabe-se lá por que, têm a unha do dedinho maior (e bota maior nisso) que todas as outras.
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