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Era tão legal Crescer envolve um punhado de males necessários. São obrigações e responsabilidades – como pagar o IPVA, lembrar de tirar a carne do congelador e sorrir algumas vezes em que você não está nem um pouco a fim – que vêm inclusas no pacote. Ao mesmo tempo em que adquirimos algumas coisas, também temos de deixar outras para trás. Mas tem uma que ninguém devia perder. Uma característica misteriosa, impenetrável, indefinível. Aquilo que nos faz adorar, quando pequenos, situações que abominamos quando maiores. Se todo mundo fosse capaz de manter essa capacidade intacta, muitas das pequenas agruras do dia-a-dia virariam verdadeiros presentes dos céus. Tomar chuva, por exemplo. Quer alegria maior, quando nossa idade não conta mais que o número de dedos das duas mãos, do que ver aquele fim de tarde de verão se cobrindo de nuvens cor de chumbo? Eu já colava na saia da minha mãe e atacava com a tradicional ladainha "deixa- vai- deixa- vai- deixa- vai- é- só- um- pouquinho- juro- que- não- peço- mais- nada". Depois da desistência dela na brava luta para me segurar em casa, a seco e a salvo, corria em desabalada carreira rumo àquela aguaceira toda que despencava sem dó. Sentava na guia para segurar a corrente. Pulava com as mãos para cima. Engolia gotas caídas diretamente do céu. Hoje, se o horizonte ameaça chuva, já fico pensando como o meu caminho para casa pode estar - se vai ter trânsito, enchente ou mais crateras abertas que na Lua (que os americanos montaram no deserto). Pior ainda: se ouço ao longe o ribombo de trovões e estou a pé, corro para baixo de qualquer telhadinho disponível - como a maioria das pessoas, que ainda por cima aceleram as pernadas xingando. Triste isso. Pegar ônibus, metrô ou usufruir de um passeio em qualquer meio de transporte público também gerava horas de lazer garantido. A minha irmã mais nova vive querendo sair para andar de ônibus. Metrô, então, é a glória. Digamos que, para ela, andar de ônibus é uma excursão para o Zoológico, e adentrar os domínios subterrâneos do metrô seria o equivalente a pegar o ônibus fretado com os coleguinhas de escola rumo ao Playcenter. Pois para quê?! Depois de uns anos, ela vai achar simplesmente um saco ter de contar com os coletivos para chegar aos seus destinos - sejam eles de obrigação ou de diversão. Uma pena. Por fim, ir ao supermercado fazer compras era uma das minhas mais cotadas opções de lazer. Adorava ficar dentro do carrinho empoleirada, observando aquela profusão de cores e formatos exibidas pelas mil embalagens, vendo tudo quanto fosse possível com a mão. Quando o João passou de uma bola de cobertores azeda e com cara de joelho para um garotinho bacana, simpático e anatomicamente acoplável ao interior do carrinho, então, a ocasião ficou ainda melhor. Antecipamos as peripécias do "Jack Ass" em pelo menos uns quinze anos. Agora, adio o quanto posso minha incursão pelo mundo maravilhoso de Sam Walton - ou de qualquer outro equivalente. Protelo a ida ao supermercado até que só sobrem água e temperos para comer em casa. Tudo para não passar horas numa atividade que não é exatamente ruim, mas muito desgastante - afinal, não termina nunca. Os produtos vão da prateleira para o carrinho; do carrinho para a esteira do caixa; da esteira do caixa, em sacolas, de volta ao carrinho; dali para o porta-malas do Deep Purple; da mala do Deep para o chão da cozinha e, finalmente, do chão da cozinha para os armários de casa (também assinados pelo inefável sêo Jura). Ufa! Haja saco, literalmente. Prometo procurar aquela característica mágica infantil, de ver graça nessas coisas, nas próximas vezes que eu tiver de pegar um ônibus ou tomar chuva involuntariamente. Quanto a fazer compras, bem… será que dá para o sêo Walton pendurar essa? Grandes Clássicos Também Votam Rick: De todos os bares em todas as cidades no mundo, ela tinha de entrar justo no meu. [Se Ilsa foi capaz até de achar um moquifo em "Casablanca", no meio da 2ª Guerra Mundial, o que você está esperando para votar no Garotas? É só até quinta!] Clara McFly às 05:45 PM |
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