Jogar as roupas pelo chão, brincar na lama e depois entrar em casa com o tênis sujo, ficar na rua o dia inteiro, rabiscar a parede com casinhas e bonequinhas, espalhar todos os brinquedos sobre a cama, pegar escondido o vidro de bolacha antes do jantar. Todas essas ações audaciosas perdem a graça depois que a gente cresce. Mas o problema, quando se é criança, é que o gostinho pelas aventuras durava pouco. Depois, droga, vinha bronca!
Para a minha alegria e pelo bem-estar do meu bumbum, meus pais nunca foram adeptos das palmadas. A briga, pois, acabava sempre sendo verbal mesmo – o que para mim era tão terrível quanto o chinelo. Odiava ser contrariada e abria aquele berreiro, com direito a soluços, ombros curvados e até mesmo uma esperneada no tapete. Passei 10 anos como filha única, veja bem.
As traquinagens podem até mudar de criança a criança, mas o engraçado é que as broncas sempre são as mesmas. Não é que adultos deixam de lado a criatividade quando o assunto é frase de efeito. Acontece que eles já ouviram tanto isso quando petizes que não vêem a hora de descontar na sua própria prole. Assim, as mais clássicas broncas continuam passando de gerações a gerações...
Por causa disso, olha aí o que ficamos cansados de escutar:
Falei, brincadeira de mão não dá certo!
Brincadeira de mão é um termo engraçado, até porque a maioria das brincadeiras sempre inclui as mãos, certo? Mas os adultos, aqui, se referem àquelas envolvendo tapas, ou almofadadas, ou puxa-empurra, ou qualquer outra ação que começa bem, mas invariavelmente vai acabar em choro.
Eu disse que era para trazer o troco!
Não entendo porque mães têm essa neura com troco. Já não basta pararmos nossos afazeres e irmos até a padaria comprar leite e pão, elas ainda querem o troco inteiro? Fora que os tios do caixa sempre tentavam nos empurrar balinha ao invés de moeda. Larápios, eu caí em todas!
Não me envergonha na frente das visitas!
As Visitas. Com “V” maiúsculo, pois esse tipo de gente era praticamente uma entidade. O bolo no forno era para as Visitas. O café passado na hora, para as Visitas. A louça mais bonita precisava ser lavada para as Visitas. Por causa delas tínhamos até que trocar de roupa e arrumar a sala...
Se eu tiver que me levantar daqui...
Muito cômodo os pais ficarem dando ordens sentados confortavelmente no sofá enquanto assistem ao Jornal Nacional. E, se fingíssemos não ligar para as palavras, sacavam dessa máxima. O pior é que nunca soubemos o que aconteceria se eles levantassem dali. Quem arriscaria, hein?
Você sempre tem que ver com a mão?
Criança que é criança possui olhos nas palmas das mãos, e ver apenas com a visão nunca deu certo para quem tem uma dezena de anos. Daí, a gente pegava os objetos e... pronto, lá ia o bibelô se espatifar no chão. Se fôssemos visita, então... A regra do “pode tudo” só valia para a outra.
Comida não é brinquedo!
Como eu ouvia essa! Acontece que, quando criança, eu comia feito um pardal. Era magrela e miúda, até uma vagem me sustentava! Não, tinha que ficar sentada até raspar o prato. Como isso não ia acontecer, começava a brincar com a comida no fundo do prato. Fazia lindas flores com cenouras!
Quando eu voltar quero ver tudo arrumado!
Tinha coisa mais chata do que arrumar o quarto ou o armário? Ou ambos? Não sei qual o problema do cômodo bagunçado, uma vez que as Visitas nunca adentravam aquele mundinho paralelo. Para quê ordenar bonecas ou carrinhos nas prateleiras se iríamos desfazer tudo de novo mais tarde?
Eu não sou sua escrava!
Essa doía. E minha mãe, esperta que é, sempre lançava mão da pérola do drama para me tocar fundo e me fazer levantar da frente da tevê e ir ajudá-la no que fosse preciso. Também não entendia porque reclamava tanto do serviço doméstico, se brincar de casinha costumava ser tão legal.
Não me faça pedir de novo!
Outra do gênero “melhor não arriscar”. Passei minha infância sem saber o que aconteceria se meus pais pedissem algo pela segunda vez. Espero mesmo que a fala implique algo bem ruim. Imagine se fosse “Se você me fizer pedir de novo, ganha um picolé” ou “pode brincar até tarde na rua”...
Engole o choro!
Depois que o berreiro começava já por conta de uma primeira bronca, era difícil conter. Com requintes de crueldade, lá vinha o mesmo adulto dando outra bronca justamente por causa do choro! Lembro-me bem da sensação de engolir choro. Sobram apenas o bico e os soluços. Ai, que dó!
Não vejo a hora de ter uma criança nova nessa família!
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Thank you, Araraquara!
Atenção leitores que moram no nosso imenso interior paulista: quem estiver em Araraquara ou região amanhã (06/03), está intimado a nos conhecer pessoalmente. Fomos convidadas para dar uma palestra no Sesc Araraquara, das 15h às 17h. Apareçam por lá, hein? Senão dou bronca.