Será que só a minha vida é permeada de acontecimentos estranhos e situações bizarras? Será que só o meu carro é possuído por forças do mal? Sei não… mas acho que nem o exorcista-mestre da Rede Record seria capaz de tirar o encosto que se apodera do meu pequeno, prateado e quase-querido automóvel.
Bom, é verdade que ele tem vontade própria e cria problemas só para me ver nervosa, mas também não é por isso que eu abandonaria o pobre ou o venderia no Feirão de Domingo. Mamãe me ensinou a não desistir daqueles que andam tomados por gênio ruim.
Sabendo desse poder, meu carro tem manias esquisitas e uma necessidade enorme de criar confusão. Daí eu achar que ele, na verdade, é uma senhora de 75 anos que, falecida, ganhou sobrevida na forma de um Ka. De vez em quando me pego pensando que ele talvez possa ser chamado de Emengarda.
Dentre as brincadeiras de mau gosto que o carrinho gosta de fazer, estas abaixo são as mais frequentes. O gozado é como ele nunca cansa de me aborrecer… ai, ai… veículo mais sem graça…
Batom gera farol aberto
É batata: se eu estiver atrasada e decidir ganhar tempo amarrando os sapatos ou penteando o cabelo no carro, nunca haverá sinal fechado. Aquele tempinho valioso de trânsito interrompido nunca vem quando é preciso. É capaz de eu chegar no destino descabelada e sem batom. Aposto que é culpa da Emengarda, que lança um campo magnético para mudar a cor do semáforo remotamente e me deixar parecendo um espantalho.
O endereço vive na dobra
O carro possuído também contaminou o guia de ruas que mora sob o banco do passageiro. Absolutamente todos os logradouros que eu tento procurar estão localizados na dobra do livro ou na margem da página, onde é impossível seguir o mapa. Se eu não fosse (ao contrário da Vivi) a Mulher-Bússola, estaria literalmente perdida.
Quando os objetos rolam, adeus
A velha maluca e mau humorada que encarnou no meu automóvel também é uma senhora larápia. Quando breco mais forte ou faço curvas em duas rodas (mentira…), os artigos da bolsa e apetrechos avulsos costumam voar pelos ares. E depois pra achar? Nunca mais. A idosa deve ter uma coleção de presilhas de cabelo, canetas e moedas. Outro dia, quase surrupiou meu celular… Mas esse resgatei nas entranhas do carro antes dela tomar posse.
Comida ganha o espírito local
Até o mais comportado dos biscoitos vira um demônio de farinha quando adentra o Kazinho do mal, se remexendo todo e espalhando quilos de migalhas. Iogurtes e frasquinhos de Yakult, então, fazem questão de virar no painel, no chão, na minha roupa. Aqueles lactobacilos vivos devem se divertir horrores causando tumulto. A velha Emengarda não tem noção de como comida custa caro.
Só ao chegar no destino toca música boa
Por isso opto pelos meus queridos CDs. Quando eles já rodaram 11 vezes, por outro lado, tenho que apelar ao rádio. Duro é que não toca quase nada de bom – e apenas quando chega o meu ponto de parada começa aquela música sensacional. O jeito é ficar na garagem ou mesmo na rua, cantando a plenos pulmóes, até a canção bacana acabar. Vai ver o carro-exu combina isso com o rádio pra me segurar ali mais uns momentos. No fundo, o possuído me adora.