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O pescador de ilusões Era uma vez um fantasma especializado em assustar humanos. Ou um estranho e tímido ser que possui tesouras no lugar das mãos. Ou um cineasta incompreendido por seus filmes B. Ou uma cidadezinha nebulosa e assombrada. Escolha, ouça e veja qualquer uma dessas histórias – o resultado será sempre o mesmo: admiração pelo trabalho de Tim Burton, um diretor que se empenha em declarar seu amor à sétima arte através de um universo composto apenas de cenas memoráveis. Sabe quando você escuta alguns acordes de um solo de guitarra é já consegue falar de quem são as mãos por trás do som? Assim acontece com os filmes dirigidos por Burton. Seu estilo encantador, misterioso e ilusionista é totalmente autoral. Todas as peças assinadas por ele carregam uma marca que não pode ser apontada precisamente, mas que pode ser sentida e reconhecida. Mesmo sendo uma superprodução como “Batman” ou um pequenino filme como “Edward Mãos de Tesoura”. O diretor, considerado um freak pela máquina hollywoodiana, consegue me arrastar para o cinema como mariposa atraída pela luz. Nem preciso saber com quem é o filme, qual é a história, qual a opinião da crítica especializada. É do Tim Burton? Se a resposta for afirmativa, lá estou eu na fila da bilheteria, pagando feliz o preço exorbitante do ingresso. Porque eu sei que vou sair da sala de projeção melhor do que entrei. Foi o que aconteceu na última quarta-feira. Após perder todas as vinte sessões de pré-estréia por dezenas de motivos diferentes, finalmente consegui botar meus olhinhos ansiosos em “Peixe Grande”. Mal podia esperar. O ator, Ewan McGregor. A música, Danny Elfman. O filme, Tim Burton. Nem precisava pedir mais. Porém, todo mundo que estava ali, sentado em fila nas cadeiras acolchoadas, levou muito, muito mais. “Peixe Grande” mostra a trajetória de vida de Edward Bloom, hoje um velhote doente e a ponto de partir desta para uma melhor. Bloom é especialista em contar “causos”, injetando aventuras, seres estranhos, mistérios e magias em fatos da vida real. Sua imaginação é tão fértil que nem o próprio filho consegue ao certo separar o que é ficção do que realmente aconteceu. Exausto de tanta firula, ele tenta aproveitar os últimos dias do pai para saber mais sobre aquela figura intrigante e, agora, frágil. É nessa busca pelo conhecimento de um estranho tão familiar que Burton nos brinda com histórias mirabolantes. Daí, só nos resta relaxar na poltrona e nos deixar levar por um par de gêmeas siamesas chinesas, um lobisomem que é dono de circo, um gigante amigo, uma bruxa cujo olho de vidro mostra o futuro, uma cidade perdida onde ninguém usa sapatos, uma floresta mal-assombrada e, claro, um peixe muito grande. Em certas ocasiões ou queria ter um controle remoto para pausar e conseguir digerir melhor cada cena. Como quando o jovem Bloom e sua namorada estão deitados no meio de um campo imenso de narcisos. Ou quando o velho Bloom e sua esposa (Jessica Lange, muito mais linda do que em “King Kong”) estão abraçados na banheira. É tudo muito curto e sutil, deixando sempre a sensação de “ué, já acabou”? Portanto, tente aproveitar. Daí, o leitor também vai querer dizer “Conta mais, Tim Burton. Porque você é o verdadeiro peixe grande”.
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