Vocês já devem ter notado que eu moro em São Bernardo, também conhecida como o B do ABC Paulista, a Hollywood e/ou a Detroit brasileira (vide, respectivamente, os estúdios da Vera Cruz e as fábricas de autos) e, já adianto, a verdadeira terra da garoa – afinal, os céus de São Paulo há muito pararam com essa mania besta de ficar vazando aos pouquinhos.
Embora seja colada à capital paulista, São Bernardo guarda uma série de particularidades. Só quem cresceu aqui (como eu, que nasci em São Paulo e me mudei para cá com quatro anos) sabe quantos sorrisos amarelinhos a gente dá com as piadas repetidas, do tipo “ah, você é do interiorrr, então?” e “pode discar seu número direto ou tem DDD?”.
O problema não são os gracejos em si, mas o fato de que todo mundo fala a mesma coisa quando conhece alguém dessa gloriosa cidade... Para ajudar na falta de comentários para a ocasião, listo a seguir um monte de outras coisas que qualquer cidadão de fora de São Bernardo pode dizer ao conhecer um bernardense. Anotem e guardem para quando a gente se cruzar por aí! Podem começar com um “ah, você é de São Bernardo? Então, você...”
... já foi num baile do Singular ou num carnaval na Associação?
Famosíssimos, os bailes temáticos do colégio Singular eram feitos no Aramaçan, um clube na vizinha Santo André, e reuniam todo mundo que estava a fim de dar uma extravasada hormonal, se é que vocês me entendem. E os camarotes do carnaval na Associação (dos Funcionários Públicos, outro clube) pareciam um episódio do Wild On.
... ia na Sollem e na Twist’s dançar?
Essas foram as casas noturnas mais populares da minha época (odeio me pegar usando essa expressão). Pus os pés na Sollem uma única vez – lá só se entrava de sapato, que coisa mais provinciana! Já a domingueira (outra expressão infame) da Twist’s era de lei. Um pai ia buscar, outro levar e eu ficava lá arrastando uma asinha para o Jarbas ao som de “New York, New York” – música que fechava a noite.
... mora perto de qual saída da Anchieta?
A estrada corta a cidade de cabo a rabo, desde o limite com São Paulo até a Serra do Mar. Todo bom bernardense pega a Anchieta pelo menos uma vez por dia. Logo que me mudei, adorava ficar deitada no banco de trás do carro, vendo aqueles postes de iluminação enormes e parecidos com trevos. Hoje, gosto especialmente de pegar a estrada nos dias em que estão cortando a grama dos canteiros. Fica um cheiro bom por todo o caminho.
... ia almoçar na Rota dos Restaurantes?
Não basta ter freqüentado os salões do Florestal ou do São Judas Tadeu, no bairro Demarchi, e se empanturrado de frango à passarinho e polenta frita ao som de “Besame Mucho”. Se você também foi uma criança dos 80, tem de ter conseguido fazer o pai comprar os balões platinados, o apito que imita gato ou, pelo menos, uma geleca – tudo oferecido por vendedores nas imediações do restaurante.
... conhece alguém que estuda ou estudou no Wallace?
A Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Wallace Simonsen fica colada à Vera Cruz, no Jardim do Mar. Enorme, o colégio carinhosamente apelidado simplesmente de Uálace deve ter formado uns 40% da população de São Bernardo. É impossível passar incólume: todo mundo de Bernô conhece um ex-wallaciano.
... foi torcer nos Jogos Escolares lá na Vera Cruz?
A rivalidade entre as escolas pegava fogo, os ônibus ficavam lotados de crianças mal-criadas (a passagem era de graça para estudantes que iam jogar ou torcer) e a ocasião gerava gritos de guerra politicamente ultrajantes, como “Metodista, Metodista/ Entra burro e sai autista” ou “Ninguém me ama, ninguém me quer/ Eu vou ser freira do São José”. Criança não presta.
... compra no Metrópole desde quando ele se chamava “Shopão”?
Antes da reforma, lá pelos idos de 94, o maior shopping de São Bernardo ficava ao lado do Paço Municipal e tinha como âncora um Jumbo Eletro (!). Apelidado de “shopão” (shopping grande, pegou?), o lugar era deprimente, mas depois da mudança ficou um brinco. Pequeno, mas bonitinho. Tem até Renner, olha só!, e eu bato cartão na tal loja...
... assistiu aos jogos da Copa na Kennedy?
Mais uma desculpa para adolescentes com hormônios em estado de fúria darem vazão às coceirinhas, os jogos da Copa eram transmitidos num telão, instalado à avenida Kennedy – local cheio de barzinhos, sorveterias e outras bossas. Eu acompanhei quase toda a Copa de 94 lá. Ah, dêem um desconto, eu tinha 16!