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Jura, sêo Jura? Imagine o Roque, ajudante de palco do Silvio Santos, de bigode. Ou a Marlene Mattos, tanto faz. Coloque um simpático acento de nordestino, porém uma conturbada dicção que dificulta o entendimento das mais simplórias frases. Adicione ainda uma certa confusão para gravar nomes e dados na cachola, uma completa falta de noção de horários e uma tendência nata a fazer tudo o que der na telha sem levar muito em conta opiniões alheias. O resultado da mistura? Sêo Jurandir, o marceneiro. Os serviços de Jurandir (ou Jura, para os íntimos), me foram recomendados pela Clarinha. Foi ele quem fez a bela cozinha da casa colorida que a moça habita lá em São Bernado do Campo. Como eu também estava precisando de um profissional sabido de móveis, madeira e serras tico-tico para a minha cozinha – e não conhecia ninguém no ramo que fosse barateiro –, fez-se o contato. E Jurandir veio. Antes, Clara me preparou psicologicamente: “Quando ele chegar, você vai querer me xingar. Mas fica fria, que ele fez o serviço direitinho”, não esquecendo do adendo “Ah, ele parece o Roque. Ou a Marlene Mattos”. Lógico que eu tive de segurar o riso quando abri a porta para a pitoresca figura adentrar o recinto. O que queríamos para a cozinha não era nenhum Taj Mahal da marcenaria. Dois retângulos com portas de correr e vidro fosco, acima e abaixo da pia. Outros pequenos compartimentos basculantes, dois sobre a geladeira, um sobre o fogão. A madeira, de cor tabaco, como os demais móveis do apartamento. Para não dar trela a mal-entendido, teve até esquema no computador, com as devidas medidas. Só faltava fazer. Era aí que Jura entrava. Na primeira visita, Jurandir fez suas próprias medidas e anotações, aparentemente desdenhando nosso complexo esquema desenhado com cuidado. Apontamos no mostruário o tom certo: escuro, sem veios aparentes. Também nos esmeramos em explicar que não queríamos fórmica, de jeito nenhum. Entendeu, sêo Jura? “Entendi”, respondia, de um jeito meio incompreensível. Quinze dias depois, ele liga para dizer que está tudo pronto. Avisa que vai trazer e montar na manhã seguinte, às 9h. Mas apenas quando meu relógio de gato deu uma única badalada vespertina foi que Jurandir chegou. Contando com a ajuda e o reforço de dois rapazes, colocou na sala todas as partes desmontadas, como um Lego. Arrastou os móveis e estendeu uma manta que já veio empoeirada e cheia de serragem de trabalhos anteriores. Como sou chata com essas frescuras de limpeza, fiz que não vi e voltei ao computador. Ao terminar, sêo Jura me chamou – não pelo nome, porque ele nunca conseguiu decorar “vivi”, tadinho. Daí veio o choque: ele tinha feito a) tudo em fórmica, b) sem vidro fosco na parte de baixo e c) com medidas aleatórias, apesar dos desenhos minuciosos que entregamos a ele. “Mas sêo Jura, a gente não queria fórmica”, tentei falar de modo meigo. “Ah, mas esse material é que é bom, dura uns par de ano”. Vendo minha cara de decepção, tentou explicar que “é facinho de limpar, só passar cera que fica tinindo”. Claro, até eu, passando cera, fico tinindo. E quem ainda usa cera nesse novo milênio? Só marceneiros com a cara do Roque. Ou da Marlene Mattos. Lá foi Jurandir, sob protestos lacrimosos, desmontar tudo e encapar todos os gabinetes e portas com o tom certo, sem fórmica. Ontem ele trouxe os armários novamente: e, desta vez, acertou. Pena que as portas não se encaixaram nos compartimentos basculantes (?) e ele ficou de refazê-las. Hoje, portanto, tem mais um capítulo da saga de sêo Jura no apartamento. Estou torcendo para que seja o último. Juro. Vivi Griswold às 08:42 AM |
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