segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004

Eu, coração, SBT

Há coisas que só o Sistema Brasileiro de Televisão pode fazer por você. Não me refiro aqui, porém, a traseiros requebrando-se e atacando as câmeras em horário familiar, nem a entrevistas inventadas e protagonizadas pelos piores atores de pegadinha que um salário mínimo pode comprar. O SBT que me diverte é aquele de cenários bregas, prêmios toscos, seriados tranqueiras e cenas hilárias – tudo orquestrado pelo Homem do Baú.

Porque se existe algo que sêo Silvio Santos sabe fazer, além de ganhar dinheiro, é patrocinar com orgulho uma programação repleta de pérolas impagáveis. Enquanto as emissoras concorrentes gastam milhões com programas novos e apresentadores estelares, o senhor de cabelos acaju bota “Chaves” e “Chapolim” pelo qüinquagésimo ano consecutivo no mesmo horário. E ganha.

Quer outros motivos para ser SBT de coração? Ok, você pediu.

O dono cantava marchas de Carnaval
Que Globeleza que nada! A musa das festividades carnavalescas é mesmo o Silvio, pelo menos para mim. Ou alguém se esqueceu daquelas musiquinhas engraçadíssimas que ele cantava? A letra aparecia na tela, emoldurada por confetes e serpentinas, para as “colegas de trabalho” acompanharem versos como “A pipa do vovô não sobe mais/ a pipa do vovô não sobe mais/ apesar de fazer muita força/ o vovô foi passado pra trás”. Queria ver se o Roberto Marinho tinha a manha...

Isso é prêmio?
Se um dia você tiver a felicidade de ganhar alguma coisa no SBT, prepare-se. Quem quer levar para casa um par de tênis Montreal ao invés de um Nike? Ou um videogame Dynavision no lugar de um Playstation? Ou um dormitório capelinha padrão mogno ao invés de... sério, quem quer ganhar um dormitório? Tudo bem, tem aviõezinhos de dinheiro. Mas, para arrematá-los, você terá de entrar em luta corporal com as Irenes, Mirtes, Lourdes e Janetes, todas vindas da caravana de Carapicuíba.

O Lombardi e o Roque
Um é a voz mais famosa do Brasil, mas não aparece. O outro, é o sósia mais perfeito da Marlene Mattos, mas não fala. Juntos, Lombardi e Roque representam a fina-flor da emissora que ainda está na ativa. Servindo o Patrão desde o começo, quando o SBT era tudo mato, a dupla é responsável pela alma proletária dos programas. Eu assisto até a sorteio da Telesena (de Páscoa, de Carnaval, de Primavera, de Dia dos Pais, de Finados e etc) para ouvir o Lomba. E o Roque, esse é paixão antiga.

Mão-de-obra politicamente correta
Enquanto a televisão vai expulsando artistas com mais de 50 anos (a não ser que sejam figurões), no SBT há espaço para rugas. Ivo Holanda, pioneiro das pegadinhas nacionais, sempre teve cadeira na emissora. Assim como a velhota Ruth Ronci, que só não deve ter mais idade que a Hebe. A amostra de dignidade é visível quando pensamos em Rony Rios e em Valentino Guzzo. Ambos colocaram comida na mesa travestindo-se de... de... hã... mulher? Afinal, o que eram a Velha Surda e a Vovó Mafalda?

Jesus falava
Precedendo toda a onda gospel que invadiu a televisão brasileira, o SBT dava espaço para a religião. Antes do programa “Porta da Esperança”, todo santo domingo (sem trocadilhos), lá estava Jesus. A imagem ficava congelada na tela e uma voz à lá Lombardi dizia: “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que fez tudo o que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”. Um clássico.

Uma novela com meu nome
Qual outro canal aberto, além do SBT, teria a pachorra de exibir uma novela com o meu nome? “Viviana, Em Busca do Amor”, para ser mais exata. Eu, que sempre senti uma pontinha de inveja de minhas colegas que possuíam xarás nas tramas globais, de repente me vi homenageada nesse clássico folhetim mexicado, com direito a abertura brega, heroína pobre-porém-honesta, vilã mais demoníaca que Exu Tranca-Rua e mocinho rico-porém-limpinho. Isso sim é que é novela. Isso sim é que é emissora.

novelaviviana.jpg
Coisa mais linda!


Imagem emprestada do Museu Nostalgia.

Vivi Griswold às 09:35 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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