Todo início de ano acontecia o mesmo ritual: mamãe mandava eu me trocar e esperar por ela no carro. Na Brasília cor de café-com-leite, íamos falando sobre o que constava na lista, o que valia a pena comprar a mais, o que era a moda do momento. Sim, porque adquirir material escolar era uma ciência profunda durante o primário e o ginásio.
Na minha época de piveta em São Bernardo do Campo, o templo máximo para a aquisição do material escolar era a filial das Lojas Glória. Hoje falida e mal paga, ela já não é local de peregrinação para garotinhos e garotinhas em busca de uma lapiseira zero-cinco da Pilot com tubo verde e ponteira roxa. Mas até completar uns 12 anos, eu estava lá religiosamente todo começo de fevereiro.
Em geral, a busca abrangia um monte de itens clássicos, dos pacotes de 100 folhas de sulfite e almaço até pastas de elástico ou com furos. Por esses eu passava rapidinho. O interesse maior, claro, ia para as preciosas situações que seguem abaixo.
Escolher borrachas e canetas
Confesso que eu era chegada numa borracha cheirosa, em canetas com 20 cores num só tubão e em apontadores em forma de capacete. Minha mãe, sempre ciosa do rico dinheirinho familiar, nem sempre concordava com essa orgia fútil – e botava breque. Mas mesmo quando eu saía da loja com uma nova borracha branca (daquelas ótimas para limpar na parede da classe), uma Bic 2 Cores e apontador comum, já sorria feito ganhadora da loteria.
Implorar por lápis de cor, de cera, guache e pincéis
Todo mundo que me conhece sabe da paixão enlouquecida que tenho por artigos de pintura. Qualquer um desses conjuntinhos de sonho me deixa paralisada na vitrine. Na infância era pior ainda: bastava pôr os olhos naquela linda caixa de Faber-Castell de 36 lápis cheirando a novidade, eu já começava a puxar a minha mãe pra ver. Ela comprava esses sem titubear, assim como as tintas e outras coisas baratinhas de desenho. Mamãe queria uma artista na família, ganhou uma escritora. Isso porque...
Achar o caderno mais bacana dentre todos era o céu
... sou uma caderno-freak. Até hoje, por sinal. Carrego dois na bolsa, um pequenino para anotar besteiras importantes e um maior, que é ata de reuniões, eventos e idéias para o Garotas. De pequena, vasculhava cada centímetro da prateleira da loja na busca frenética por um modelo “da hora”. Mas acabava fazendo o de sempre: achando um caderno básico, cobrindo a capa com figuras e frases recortadas de revista e finalizando a obra com plástico transparente. Não tinha caderno mais "cheguei" que o meu aos 12 anos.
Encontrar algo que ninguém tinha
Num ano, foi a régua de metal que produzia barulho ensurdecedor quando caía da carteira. No outro, foi um fichário roubado do meu pai que parecia pasta de segredos da CIA. Sempre ficava inventando uma modinha para impressionar as demais crianças e, assim, tentar não parecer uma nerd. Em geral, até que dava certo. No ano em que levei para o primeiro dia de aula um estojo que abria ao acionar teclas prateadas, ganhei alguns amigos de cara. Demorou só mais sete ou oito anos pra eu deixar de ser uma nerd completa...
Comprar mochila nova
Para quem via fora do contexto, dava a entender que eu usava minha mochila da escola para carregar pedras de rio ou carvão. Em questão de cinco meses, o que era uma mala bonita, azul ou rosada e novinha, virava um trapo. Todo ano, portanto, era preciso arrematar um novo modelo na loja. E a cada verão a vontade evoluía. No começo, ganhava aquelas malas com bolões vermelhos refletivos. Mais tarde, era a Risca emborrachada na cabeça. E, por um tempo, tive uma mochila malucona que parecia um pára-quedas – ou o casco das Tartatugas Ninja. Dessa eu morro de saudade.
Encapar a tralha toda com papel-contact
A parte mais festiva sobre o material escolar, no entanto, não acontecia na loja, durante a escolha dos pertences. O mais legal era chegar em casa com a sacolona, esparramar tudo na mesa e começar a “saborear” as compras. Era nessa hora também que começava a fase “mamãe-embrulha-tudo”. Com a minha ajuda meio atrapalhada, ela apanhava cada livro e aplicava o papel-contact, pra proteger a capa e os cantos da fúria estudantil que me era peculiar. Fazer isso sem deixar nenhuma ruga ou bolha feia aparecendo era trabalho para engenheiro da Nasa, mas minha mãe era especialista. Porque comprar material escolar foi a ciência profunda que ela aprendeu e me ensinou!
Taí o vício de volta às aulas