|
||||||||||
|
||||||||||
Ei, você sentou no meu amigo! Pode acreditar: o poder da genética vai bem além do que se imagina. Pelo menos na família desta humilde escriba, onde eu e meu irmão carregamos da minha mãe não só os genes que determinaram nosso cabelo aloirado e um som estranho que fazemos ao beber água, mas também a capacidade de... criar amigos invisíveis! Antes que vocês chamem o doutor Charcot, devo explicar que nós três cultivamos amizades imaginárias apenas nos idos da tenra e doura infância. Sim, eu falo sozinha até hoje, mas não vejo mais o tio Badépi – esse era o nome do meu acompanhante da cachola. Quando começaram a notar que aquela meninota magrela passava horas a falar com uma criatura inventada, minha mãe nem ligou. Mais tarde, ela me contou que tinha não um só, mas um pequeno bando de amigos invisíveis. Eles tinham chapelões na cabeça e moravam debaixo da cama dela. À noite, depois de se certificar que ninguém estava olhando, ela metia o braço debaixo da cama, para servir de escada aos pequenos, hã, seres. Eles subiam pelo braço dela e ficavam ali empoleirados, conversando e se divertindo, usando as pernas dobradas da garota como escorregadores. Perto disso, bater um papo com um amigo imaginário cujo nome lembra um cartão da Previdência Social não é nada. Daí também ninguém dar muita trela quando o João Paulo sacou do Duduca, com quem ele passava tardes a fio conversando, sentadinho debaixo de um vitrô que ficava no meio da escada de casa. O Duduca virou parte da família: ele ia viajar com a gente para Bertioga, acomodado dentro de uma caixa – de fósforos ou de sapatos, o que estivesse mais à mão da minha mãe quando o mocinho exigia um lugar confortável para transportar seu amiguinho. Não me lembro da última vez que vi tio Badépi. Tampouco minha mãe se recorda de quando se despediu do animado grupo de chapeleiros. Já o Duduca teve um destino certo – e aparentemente muito bom: depois de notarmos que o João passou uma semana sem encostar debaixo do vitrô, perguntamos o que tinha acontecido com a criatura. Sem titubear, ele respondeu: “Foi para a Bahia!”, e deu de ombros. O Duduca podia ser imaginário, mas não era bobo não... Clara McFly às 06:11 PM |
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||