quinta-feira, 29 de janeiro de 2004

O incrível puxadinho da bagunça

Sonho é um troço deveras estranho. Toda vez que o filminho noturno nonsense me transporta para minha casa, nunca é o apartamento onde moro hoje, ou o anterior a esse. O lar que meu subconsciente registrou como tal foi mesmo o sobrado de dois quartos onde morei dos sete aos dezesseis anos, no pitoresco Jardim Cipava, na mais pitoresca ainda rua Norma Zemella Moura, lá no maravilhoso mundo de Oz. E isso é um dos grandes mistérios da existência desta garota.

Aquela casa ostentava um carpete verde-musgo que me fazia ter crises de rinite a cada semana. Mamãe comprou o Sterilar, uma caixinha prateada e elétrica cuja função era, teoricamente, acabar com os ácaros – mas que se mostrou útil apenas como banquinho para meu irmão, que adorava descansar o bumbum pesado de fralda no aparelho. O meu quarto eu tinha de dividir com dois bebês que dormiam às seis da tarde e acordavam às cinco da manhã, aos berros. O quintal não era tão grande e o jardim era descuidado. Pensando bem, eu nem gostava muito de morar lá.

Então por que diabos é essa a casa dos meus sonhos involuntários? Será que meu subconsciente é mais saudoso do que eu poderia imaginar e registrou o lar da minha infância? Se for esse o caso, sou muito mais a casa da vovó, onde eu era inquilina enquanto minha mãe trabalhava e onde fazia comidinha de mentira com verduras e legumes tirados da horta, sangue do diabo com produtos de limpeza e groselha (receita própria) e bonecos de retalho enquanto a dona Diva costurava.

Vai ver que a culpa é dele. Do incrível puxadinho da bagunça.

O quarto feito nos fundos do quintal era depósito de toda a sorte de objetos estranhos que não foram honrados com um lugar na casa. Meus itens favoritos eram: uma máquina fotográfica Rolleiflex aposentada; uma vértebra humana que meu pai guardou das aulas da faculdade de medicina; uma barraca de camping desmontada que só viu a luz do dia numa viagem a Atibaia; um livro sobre as dez maravilhas do mundo antigo; um computador TK 86 (que tinha menos função que o Pense Bem); um autorama; uma geringonça que fazia etiquetas, daquelas que era preciso escolher letra por letra em um disco e apertar para marcar a fita preta.

Outro cantinho especial era o de ferramentas. Havia um aparelho de fazer solda que me fascinava e me assustava ao mesmo tempo. Morria de medo de encostar, achando que meu dedo poderia, num passe de mágica, virar uma poça de gotas derretidas. Tinha ainda um gaveteiro de plástico, com cada compartimento devidamente etiquetado (graças à geringonça explicada acima) e guardando toda a sorte de pregos, parafusos, porcas, arruelas e outras miudezas do mundo da bricolagem.

No lugar mais esquecido do quarto dos esquecidos estava uma caixa de papelão guardada da tevê Mitsubishi (aquela gigante que tinha contact imitando madeira dos lados), onde eu jogava todos os brinquedos que não queria mais. Às vezes me pego vasculhando aquela caixa em pensamento, e encontro cada preciosidade que não podia ter sido perdida.

Lembro-me do chapéu com as orelhas do Mickey que minha tia me trouxe da Disneylândia, e hoje seria um objeto antigo e cult. Um par de bonecas de feltro, um menino e uma menina marinheiros, que estava pendurado na parede do meu quarto de bebê. A minha linda boneca Preguicinha da Estrela, que a gente colocava de bruços e ela virava sozinha, esticando os bracinhos num pedido mecânico de colo.

Pensando bem, da próxima vez que sonhar com aquela casa, vou tentar sair pela porta da cozinha escura, atravessar o quintal e o jardim descuidado e abrir a porta daquele verdadeiro parque das diversões esquecidas.

Vivi Griswold às 09:08 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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