quarta-feira, 28 de janeiro de 2004

Féxiom uíque

Fico pensando: qual é o exato momento em que passamos a ter noção do que é moda? Em uma época, a mamãe é quem escolhe o que vamos usar. Em outra, pegamos qualquer coisa confortável o suficiente para brincar na rua. Até que a indecisão sobre o que vestir cai em nossas cabeças sem qualquer aviso prévio. E isso acontece mesmo se você for adepto(a) da calça de moleton e camiseta folgada – aposto que em algum momento já se perguntou que roupa escolher para impressionar uma garota ou um garoto.

Eu queria me vestir como me vestia quando era criança. Na verdade, não costumo ficar muito longe daquilo. Como sou do tipo mignon (nome chique e gracioso para designar magrela-e-baixinha), costumo comprar muitas peças de roupa em seções infantis de lojas de departamento. O tamanho 16 (anos) me serve direitinho, e ainda custa mais barato do que as blusas e calças de madame, nunca confeccionadas em PP. Meus pés 34/35 também possibilitam alguns sapatos de boneca, literalmente falando.

Apesar de ser fã do pretinho básico, adoro cor de brinquedo. Mas se eu sair com uma bermuda azul de bolinhas brancas e camiseta pink, aposto que vão me olhar estranho no supermercado e me sacanear na hora do troco. Só que esse é o modelito que estou usando na foto registrada na primeira vez em que montei na minha Monark com cestinha. Naquela época, eu podia. Por que não posso mais?

Pelo mesmo motivo que não poderia usar meu conjunto favorito para brincar no quintal da minha avó ou na rua de casa. Imagine, botar um mini-micro short, uma regata de alcinha e sair por aí. Com certeza iriam me confundir com aquelas moças de vida muito, muito difícil. Ou pelo mesmo motivo que proíbem adultos a passearem usando fantasias. Criança vestindo uma roupa de cetim e tule imitando fada, é a coisa mais linda. Adulto vestindo a mesma coisa, é fugitivo do hospício.

A verdade é que a gente cresce e tudo perde a graça. Viramos pessoas responsáveis (ou, pelo menos, deveríamos virar). Precisamos arrumar um emprego e mantê-lo pelo maior tempo possível. Temos de freqüentar locais públicos como banco, mercado, cartório. Somos convidados a jantares em restaurantes ou na casa dos outros. Precisamos parecer atraentes para o sexo oposto (ou para o mesmo, nada contra). Não dá para construir uma vida séria quando a aparência é duvidosa. Certo?

Então voltemos ao princípio. Aquela hora em seu passado em que você abriu o guarda-roupa e pensou, pela primeira vez, “que camisa combina melhor com essa calça?” ou “que saia disfarça mais meu bumbum?” ou “qual dessas camisetas não possui um furo?”. O grau de vaidade muda de pessoa ou pessoa. Mas esse pecado capital habita o interior de cada um de nós. Eu, pessoalmente, gosto de andar ajeitadinha. Sou daquelas que combina sapato com fivela no cabelo, manja? Nem por isso sou escrava da moda.

O trabalho me obrigou a conhecer nomes de estilistas, tendências do verão e denominações absurdas como “drapeado” ou “rosa pétala”. Consigo até encontrar coisas bacanas em desfiles – apesar de curtir mesmo uma boa liquidação das lojas Renner ou C&A. Porém, a única peça de nome que tenho são alguns pares de meia assinados pelo Alexandre Herchcovitch, ainda assim comprados na Lupo por 5 reais cada. E jamais, nunca, pagaria um valor de três dígitos por uma roupa. Só se fosse aquele vestido com o qual Julia Roberts venceu o Oscar.

Pois a partir de hoje, eu, Flá e Clara vamos tentar desvendar alguns mistérios da moda, cobrindo a tal São Paulo Fashion Week a convite do site Vírgula. Até a próxima terça-feira, você poderá ler no especial Fuck The Fashion as impressões das três garotas no maravilhoso e pegajoso mundinho. Iremos nos divertir horrores, claro. E, depois, voltaremos para casa e colocaremos uma camiseta velha e manchada, uma calcinha de algodão sem elástico e dormiremos felizes com a sensação de dever cumprido – sem o menor peso na consciência.

gisele.jpg
Ah, Gi, não precisava se incomodar...
Vivi Griswold às 08:31 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold