terça-feira, 27 de janeiro de 2004

Com o isqueiro na mão

Parece legal no começo: o anúncio estampa em letras enormes sua banda favorita, e a turnê, finalmente, vai aportar em terras brasilis. As cenas do espetáculo que você viu na TV mostram os ídolos chutando tudo no palco, o público ensandecido cantando junto e acendendo os indefectíveis isqueiros nas baladas. Que emoção! Você se vê disposto a quebrar o porquinho e limpar até a última moeda para participar da festa.

Mas chegando lá... nada daquilo é como na TV. Tem um montão de gente se espremendo. Todo mundo sua em bicas na tentativa de chegar o mais perto possível do palco e sai briga por uma mísera palheta atirada pelo guitarrista. Não se vê nada (a não ser que sua altura seja avantajada, ao contrário da minha e da maioria da população brasileira) e você só leva bordoadas dos mais empolgados, que giram camisetas no alto e acotovelam sua cabeça durante o ato.

Ok, shows musicais são algo legal para caramba – se a banda é de sua preferência e o local da performance oferece um mínimo de estrutura. Mas, ao longo de anos de experiência no assunto, começo a achar que poucos artistas valem o sufoco.

O show do U2, por exemplo. Paguei 50 lascas – e olha que a brincadeira foi em 1998. Cheguei horas antes da abertura dos portões. Paguei um flanelinha. Me apertei na multidão quando os portões do Estádio do Morumbi foram abertos. Esperei pacientemente a entrada no palco do meu querido senhor Boa Voz e sua trupe. Quando a hora chegou... os irlandeses pareciam playmobils, tamanha a distância em que eu me encontrava deles. Claro que não consegui chegar mais perto, sob risco de esmagamento dos meus ossinhos. E, por conseguinte, nem tive chance de ser puxada pelo sexy irish man para dançar uma balada lá em cima. Ai, ai...

Também vi dois shows do Red Hot por aqui: o primeiro, no Hollywood Rock (onde consegui permissão para ir com a condição de comprar ingressos de cadeiras, o que deixa você longe do agito, mas a salvo dos malucos do camisetóptero), e o segundo, no Credicard Hall. Em 1993, tudo que vi foi um pequeno fósforo acendendo no palco – era Anthony, com seu capacete de fogo. Em 1999, na pista da casa de espetáculos, só levei mesmo tabefes. Mas vi o quarteto mais de perto. Foi ok.

Guardo ainda no currículo de espetáculos internacionais, entre um punhado de outros, as apresentações de Alanis Morrisette (ok, eu confesso: eu gostava da canadense na época de seu primeiro álbum... Mas dêem um desconto, eu tinha 18!) e o festival intitulado Ruffles Reggae, minha mais curiosa marca. Explico: nunca fui lá muito fã do ritmo representado por sêo Marley e não lembro de uma banda sequer do espetáculo. Só daquele cheiro estranho na pista... O que diabos fui fazer lá?! É um mistério para mim até hoje.

Mas de todas essas sensacionais performances presenciadas por mim, nenhuma se compara ao show do Menudo, em algum ano perdido na década de 80, no glorioso Estádio Bruno Daniel, no A do ABC Paulista. Minha paciente mãe teve a pachorra de se cercar de meia dúzia de crianças, entre elas eu e minha irmã, e rumar ao lugar debaixo de uma chuva torrencial. A certa altura, tínhamos lama até os tornozelos e os tênis Bubble Gummers, encharcados, calçados nas mãos. Os garotos de Porto Rico demoraram seis horas para aparecer no palco e a chuva não deu trégua. No fim, o que ouvi foi outra cópia da minha própria fita do Menudo estourada nas caixas (ou você acha que eles cantavam ao vivo?) e cinco pontinhos coloridos pulando no palco distante.

Mesmo assim, guardo a memória da ocasião com orgulho. Isso porque já se passaram duas décadas do fenômeno riquenho e o quinteto formado por Robbie, Roy, Ray (meu favorito), Ricky e Charlie (por que só o nome dele começava com “C”?) está virando cult. O quê? Não está não? Nem pense em me dizer tal barbaridade! Se tirarem isso de mim, só sobram, na minha experiência com shows do povo de fora, bordoadas e suadouro... além, é claro, de sons e cenas inesquecíveis.

Clara McFly às 07:03 PM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold