terça-feira, 27 de janeiro de 2004

Ronnie é o rei

Há quem diga que “Admiradora Secreta” é a melhor das comédias romantiquinhas dos anos 80. Outros apostam em “A Garota de Rosa Shocking”. Existem também partidários de “Alguém Muito Especial” e “Sem Licença para Dirigir”. Mas eu posso jurar: para essa mocinha aqui, nada podia ser mais singelo, engraçado e perfeito com pipocas do que “Namorada de Aluguel”. Tudo por causa de um certo Ronald Miller.

Só para deixar claro, “Curtindo a Vida Adoidado” não entra nessa disputa porque é fora de série, tá bom? Não há comparação possível entre a epopéia de Ferris e os demais filmes da época, faz favor. Mas pode-se dizer que a vida e obra de Ronald (na pele de Patrick Dempsey, ícone do período) é o aquecimento ideal para, um dia, chegar a ser Bueller.

O argumento de “Namorada de Aluguel” é sensacional desde o começo. Corre o ano de 1987 e Ronald é um grandecíssimo nerd. Entre um e outro jogo de cartas com os amigos (nerds, óbvio), ele arrasta um transatlântico por Cindy Mancini, a cheerleader loira e popular da escola. Na verdade, ele é quase tão apaixonado pela menina quanto pela idéia de se tornar famoso no colégio. Essa fixação americana em ser amado na escola devia ser estudada pelos cientistas...

O fato é que o destino trabalha em favor dos perdedores. Um dia, prestes a desembolsar seus suados US$ 1.000 por um telescópio, Ronnie vê a fada de seus sonhos em desespero, tentando trocar uma roupa na loja em frente. Ela sujou o vestido de vinho. E o tecido era camurça. E o traje foi afanado no guarda-roupa da mãe. E Cyndi vai quebrar pedras na Sibéria se a dona souber de tudo.

Para o meu gosto, aquela roupa era brega pra danar e devia é ter ido pro lixo mesmo – pelamordedeus, franjas e saia no joelho??? Nem nos anos 80... Mas isso não vem ao caso. Ronald está ali, oferecendo a grana, e pedindo apenas uma coisinha em troca: que Cindy finja ser sua namorada. Assim os cabeças-de-bagre locais vão achar que Ronnie é pegador e ele será afinal “the king of the black coconut candy” (o rei da cocada preta, como dizemos aqui). Sem lembrar que essa é a forma mais antiga do mundo de ganhar dinheiro, a garota topa.

Todo mundo aí lembra da seqüência, certo? Claro que Cindy vai descobrir rapidinho que debaixo daquele cabelo ensebado, por trás daqueles óculos e apesar de ser um mero jardineiro, Ronnie é um doce. Mas me desculpem: o que ela vê ali, eu sabia faz tempo.

O rapaz usa boina (um charme). Adora observar as estrelas (um encanto). Corta grama para conseguir verba própria (um batalhador). Sabe onde existe um cemitério de aviões (um engodo). Engodo, sim! Passei anos achando que esse tipo de coisa existia mesmo, e que um dia eu passearia num desses com um garoto legal como o Ronnie. O garoto eu encontrei, mas o cemitério de aeronaves... Há! A ficção só me ilude!

Sorte que entrou em cena, para compensar e me fazer rolar de rir, a Dança do Tamanduá Africano. Que espécie de gênio cria aquela situação? O moleque acha que aprendeu a bailar como os jovens moderninhos da tv, mas estava vendo um programa de antropologia!

No fim da zona toda, quando o caldo já entornou pro lado do Miller e todo o sonho de fama veio abaixo, ele decide botar a boca no mundo em plena escola. E diz assim: “Nerds, populares... Meu lado, seu lado... Isso é tudo besteira. Já é muito difícil sermos nós mesmos”. Esse é o Ronald que eu aprendi a amar.

namorada.jpg
Cemitério de aviões é coisa de gênio, hein, Ronnie?
Fla Wonka às 01:25 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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