terça-feira, 27 de janeiro de 2004

Sean machuca, mas Bill faz sarar

Uma vez a cada 250 primaveras, os planetas Saturno, Urano e Plutão se alinham com três pequeninas estrelas da galáxia conhecida como Andrômeda. E você sabe o que acontece, leitor? Não, nenhum serial-killer morto-vivo aparece para aterrorizar uma pequenina cidade no interior dos Estados Unidos. Tampouco se abre um portal que propicia contatos entre seres de diferentes dimensões. O resultado do alinhamento intergaláctico é visível... no cinema mais perto de você.

Antes que algum astrônomo de plantão mande capangas armados até os dentes atrás de mim, esclareço. O encontro de planetas e estrelas citado acima é pura invenção da minha cachola. Estou apenas tentando arrumar uma explicação coerente (hã?) para o fenômeno que as salas de projeção sofrem de tempos em tempos: uma enxurrada de filmes excelentes em uma só temporada. E aproveite, porque isso está acontecendo agora.

Cinema anda caro demais, eu sei muito bem. Mas vá por mim, que desta vez vale a pena quebrar o cofre de porquinho, economizar no dinheiro da padaria, montar uma banquinha para vender suco de tamarindo na esquina – e sair correndo para pegar a próxima sessão. Quem perder “Sobre Meninos e Lobos”, “21 Gramas” e “Encontros e Desencontros”, a trinca de ouro das telonas atualmente, não é apenas uma mulher do padre. É uma mulher do padre muito da feia, caolha, peluda, fã do Wando e com perna-de-pau desparelhada.

“Sobre Meninos e Lobos” é um drama sombrio dirigido por Clint Eastwood que, basicamente, mostra como a vida pode desandar depois que a gente cresce. Para ilustrar a teoria pessimista, o ex-astro do Velho Oeste conta a história de três amigos, interpretados por Sean Penn (vencedor do Globo de Ouro de melhor ator anteontem), Tim Robbins (que levou o mesmo prêmio por ator coadjuvante) e Kevin Bacon (que não ganhou nada – ninguém mandou fazer “Footloose” e “O Ataque dos Vermes Malditos”).

“21 Gramas” é outro drama, mas algumas vezes mais sombrio que o anterior. Li uma crítica que o resumia como “‘Amnésia’ com taco e dor”, e achei a definição muito propícia. Assim como “Amnésia” (mas nem tão complicado), o filmaço não é exibido em ordem cronológica, e sim com as cenas misturadas. Naomi Watts (aposto que você se lembra dela de “A Cidade dos Sonhos”, né? Sei.) perde o marido e as duas filhas num horrível atropelamento, cuja culpa é de Benício Del Toro (gordo, estrupiado, mal-humorado, mas sempre sexy). Ela doa o coração do marido e quem recebe é Sean Penn. De repente, a vida dos três se entrelaça.

O melhor que os dois filmes têm a oferecer é a atuação absurda do bad-boy com cara de pintinho perdido. Sean Penn é o cara. O ator ficou famoso quando Madonna, sua ex-mulher, soltou aos quatro ventos que apanhava dele – e que ele foi o melhor homem que ela já teve na cama. Se sair do cinema após as duas sessões é difícil e dolorido, o culpado é Sean. Parece realmente que ele machucou, bateu, e nos tirou toda a esperança. Mas antes da depressão chegar, lembre-se que falta um título da lista!

O remedinho contra os males do mundo é “Encontos e Desencontros” – pelo menos durante as quase duas horas de exibição desse filme despretensioso, simples, gracioso e cool até não poder mais. É lindo ver que orquestrando tudo aquilo está a mão de uma garota, Sofia Coppola, que talvez fique para sempre (e injustamente) taxada apenas como a filha do diretor por trás de “O Poderoso Chefão”. Bem, até que a reputação não é de todo mal.

No original, “Lost In Translation”, que os gênios brasileiros traduziram pessimamente e conseguiram mostrar como título em inglês faz sentido, mostra o encontro (o desencontro fica devendo, tá?) de Bill Murray (também ganhador de um Globo de Ouro) e Scarlett Johansson num hotel em Tóquio. Ele, um ator que já viveu seus tempos de glória e que agora só é chamado para fazer propaganda de uísque. Ela, a jovem e solitária esposa de um fotógrafo que vive para o trabalho. Naquele mundo estranho, os únicos que os entendem são eles mesmos.

Não consegui definir se o sentimento que brota é amor ou amizade ou sei lá o quê. Mas o abraço de despedida que os dois dão no final, com Bill sussurrando alguma coisa no ouvido de Scarlett ao som de “Just Like Honey”, balada maravilhosa do Jesus & Mary Chain, esquenta o coração mais que manta tricotada pela vovó. Êta remedinho bom, aquele.

translation.jpg
More than this, you know there´s nothing...

Ainda aí, leitor? Corra para o cinema, vamos!

Vivi Griswold às 08:51 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold