sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

Ataques de consumo apaixonado

Se tem uma coisa que me deixa auto-orgulhosa, é o meu desapego quanto a objetos inanimados. Ao contrário do que dizia Madonna nos áureos tempos, eu não sou uma garota material, e não acredito que vivemos em um mundo material. Mas, como tudo na vida, isso nem sempre foi verdade... Eu confesso aqui que tive um fraco por certos produtos durante a infância.

Não foram muitos, mas também não foram pouco amados. Sabe quando você vidra em um artigo e parece que o mundo vai se tornar um abismo de tristeza e solidão se ele não for seu? Foi assim com essas coisas.

Óculos de sol espelhado
Tive que economizar um bom tempo para juntar trocados suficientes e arrematar essa maravilha. Todo de plástico duro, armação branca feito neve e as lentes... espelhadas como prédio brega da Avenida Paulista!!! Pensando hoje, era um horror, mas como eu amei meus óculos de sol a la comédia da Sessão da Tarde. Eram enoooormes pro meu rosto magricela de pré-adolescente. Mas e daí? Apeguei naquelas lentes como se fossem a salvação da alma.

Camiseta d’A Bruxa
Sou do tempo em que comprar roupa pronta concorrida palmo a palmo com mandar fazer peças na costureira. Minha mãe levava a gente quase que mensalmente pra moça japonesa tirar medidas e fazer uma bermuda ou uma blusa de tecido previamente escolhido. Por isso, ir em loja era festa! Essa marca, A Bruxa, era uma febre nos anos 80 – mas acho que nem existe mais. Modelos moderninhos (pra época, veja bem...) de cores espalhafatosas faziam meu olho brilhar. Quase morria de felicidade ao ganhar qualquer camiseta da Hello Kitty vendida na Bruxa!

Máquina fotográfica descartável
Com essa aprendi uma lição importante. Eu ganhei a maquininha e tirei várias fotos. Depois, com medo do filme acabar logo e todo o casco ser jogado fora, passei a regular. Não queria clicar nem uma vez mais, senão a diversão ia acabar cedo. Fiquei tão desesperada pra prolongar a magia que guardei a máquina no fundo do armário, protegida da luz e dos meus irmãos. Resultado: ela embolorou. O filme velou e foi para o lixo. Não tenho uma foto sequer na minha preciosa máquina descartável Kodak 1983. Moral da história? Hoje uso tudo o que possuo até virar pó.

Patins de bota marrom-camurça
Uau!! Bastava colocar aquela coisa no pé pra eu me sentir uma patinadora do Holiday on Ice – mas sem o “ice”, óbvio, que eu sempre morei no Brasil. Foi mais um que conquistei na base de colocar moedas no cofrinho dado pela atendente do banco Nacional (onde meu pai tinha conta). Juntei, juntei e comprei de uma garota da rua. Nos dias seguintes, eu poderia ter dormido com os patins de bota, não fosse a mamãe mandar tirar aquele troço da cama. Mas eu juro que aprendi a rodopiar e a descer ladeiras de costas, usando só o freio. Como uma ás das rodinhas!

Tênis Bubble Gummers
Talvez tenha sido o cheirinho de chiclete que me fez ficar 100% apaixonada por esse tênis. Foi amor à primeira vista: botei os olhos naquela dupla azul e branca, com cadarço de velcro, e grudei na vitrine da loja. Claro que o cofrinho do banco Nacional não pôde entrar em cena dessa vez, porque o Bubble Gummers era caro. Mas meu pai me deu! Mimada, né? Dane-se: curti aquele par de calçados como nenhum outro, circulando orgulhosamente pelo bairro, pela escola, nas viagens de férias. Quero crer que esse não era meu lado materialista se manifestando, só. Aquele tênis azul foi adquirido e usado é com amor!

TimAmyGato.jpg
Tim, Amy e o Gato faziam
propaganda do adorado Bubble Gummers
Fla Wonka às 01:03 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold