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Olha o carro! Engana-se quem pensa que a interjeição acima só poderia ser proferida por algum amante de automóveis antigos ao se deparar com um belo e conservado Cadillac 1959, conversível, motor V8 e rabo de foguete. Na verdade, essa era uma das frases que eu mais falava (e ouvia) quando era criança. Apesar do quintal no fundo de casa, a rua foi meu território de brincadeiras e travessuras – de tempos em tempos bruscamente interrompidas por um veículo qualquer que teimava em passar pelo asfalto. Norma Zemella Moura é parte importante da minha infância, apesar de não fazer a mínima idéia de quem diabos tenha sido a tal dona Norma. Provavelmente, a vizinha intrometida de alguém – assim como Mirtes, Irene e Janete, esse é um nome típico de comadre, não? A ilustre desconhecida, porém, cedeu sua identidade à rua em que morei dos sete aos dezesseis anos. Foi lá onde ralei o joelho centenas de vezes, onde enfiei caco de vidro no pé, onde aprendi a andar de patins, onde fiz bandeirinhas de festa junina e onde escrevi “Brasil” com tinta verde e amarela em tempos de Copa do Mundo. Assim que eu chegava da escola, corria para engolir um almoço, vestia um short e uma camiseta qualquer e pronto, lá estava eu batendo palma na frente de todas as casas das minhas coleguinhas. Isso quando não batiam na minha primeiro, claro. Dali até a hora do jantar, nosso compromisso era só com as horas e horas de divertimento gratuito, inocente e emporcalhado. Queimada era a brincadeira de que mais gostava. Bastava delimitar dois territórios com traços de tijolo, dividir os times e arrumar uma bola levinha – queimada com bola de vôlei, aquelas de couro, mostrou-se uma má idéia. Daí, era só fazer par ou ímpar (ou 2 ou 1) para vem qual equipe começava jogando. O objetivo consistia, basicamente, em desviar das doloridas boladas e tentar promover o máximo de manchas roxas no adversário. Outra favorita, de longe, era pular corda. Adorava o desafio de entrar com o negócio em movimento, pular uma vez e sair. Na próxima, pulava duas vezes, e três, quatro... E as rimas? Tinha como “prever” a primeira letra do nome do futuro marido, precisando, para isso, errar o pulo (e a gente sempre errava na letra do nosso amor de escola, de propósito). Também havia a musiquinha “Um homem bateu em minha porta/ e eu abri/ senhora e senhores ponha a mão no chão/ senhora e senhores pule num pé só/ senhora e senhores dê uma rodadinha/ e vá pro olho da rua!”. As casas da minha rua suburbana, como qualquer outra que se preze, viviam em reforma (êta mania de fazer laje, nunca vi!). Uma delas, para nossa sorte, passou por uma construção que durou meses a fio. Pronto, lá era o cenário perfeito para o esconde-esconde, além de ser depósito infinito de tijolos e pedras para nossas amarelinhas. Não sei se é impressão equivocada, mas eu nunca mais vi um bando de crianças descalças, descabelas, cheias de marcas de bola pela roupa e sujeira vermelho-tijolo nos dedos, divertindo-se a valer com pedaços de pau, alvenaria ou uma bola murcha e ordinária. Meus irmãos, que viveram a infância deles em condomínio fechado, nunca passaram por isso. Provavelmente, nossos filhos também não passarão. E eu que achava que o carro era o maior dos vilões das brincadeiras de rua. Vivi Griswold às 09:28 AM |
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