quinta-feira, 22 de janeiro de 2004

Boa música de ontem

Eles estão com a moral mais baixa que sonda de prospecção de petróleo, representam valores dos quais quero a maior distância possível e fazem coisas bizarras a rodo. Mas tem um campo no qual os americanos do norte acertaram – e bem: a canção popular. E olha que eu sou bem fã da música produzida por essas bandas tropicais também...

Se hoje Britneys e Christinas pontuam o cenário musical com seu parco talento artístico (e absoluto talento mercadológico, se não delas de seus business men), o melhor é voltar no tempo para ouvir algumas das pérolas do cancioneiro lá de cima.

Houve um período em que, ao contrário das loiras, reinavam absolutas cantoras e cantores de verdade, como Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Louis Armstrong, Frank Sinatra (mafioso, mas limpinho) e outros nomes menos conhecidos, mas tão bons quanto. Por trás das pérolas interpretadas por esses mocinhos e mocinhas, havia compositores que sabiam mesmo juntar frases bacanas a notas interessantes. Gente como os irmãos Gershwin, Irving Berlin e o insuperável Cole Porter.

Pode parecer aclamação desnecessária de gente que já é tida como um clássico, mas muitas pessoas se resumem a repetir o que ouviram por aí. Se esse ainda é seu caso, pode procurar qualquer um dos títulos abaixo, com qualquer intérprete, e descobrir que, para essas pessoas, todos os louros são merecidos – simplesmente porque as músicas são boas, muito boas. Na pele de fã e não de crítica, apresento algumas das minhas músicas populares americanas favoritas.

They Can’t Take That Away From Me, de George e Ira Gershwin
Rápidos e rasteiros, os Gershwin descrevem um jantar romântico memorável atentando a detalhes como a maneira que a moçoila(o) segurava o garfo ou cantava fora do tom, e como o casal dançou até as 3. Danny DeVito (sim, o próprio) gravou uma versão, mas das que conheço, a de Sarah Vaughan parece insuperável.

Ev’ry Time We Say Goodbye, de Cole Porter
“Ev’ry time we say goodbye, I die a little” (“Toda vez que dizemos adeus, eu morro um pouquinho”). Depois dessa abertura fofo-trágica, o que vier é lucro. E se alguém me dissesse que, quando estou por perto, há um certo ar de primavera no lugar, nem precisava falar mais nada. É, no fundo acho que sou uma garota romântica... Ray Charles e Betty Carter têm a melhor versão dessa música.

Cheek to Cheek, de Irving Berlin
A música que embalou os passos de Ginger Rogers e Fred Astaire no divertido “O Picolino” não podia ser melhor. Para as gerações mais desligadas de cinema, vale lembrar que o exato trecho do filme é assistido por John Coffey no corredor da morte, em “À Espera de um Milagre”. E é justamente a simplicidade dos versos que encanta. Louis Armstrong e Ella Fitz fizeram a versão mais bacana. A do próprio Fred Astaire também é legal.

The Way You Look Tonight, de Fields & Kern
Não bastava ser lindíssima, a música ainda está na trilha d’”O Casamento do Meu Melhor Amigo”. Mesmo com uma levada alegre, a letra é tristinha: um dia, quando o sujeito estiver solitário, ele terá o consolo da lembrança da mocinha naquela noite, quando ela estava adorável – e o conquistou com uma gargalhada que fazia surgir ruguinhas em seu nariz. Bryan Ferry, ex-Roxy, assina a minha versão favorita.

Night and Day, de Cole Porter
Diz a lenda que esse supra-sumo da canções de amor foi composta por Porter em homenagem a um marinheiro. É, o moço bom de letra gostava de filmes de gladiador... E como escrevia, o danado! Mais uma que captura pela simplicidade dos versos, “Night and Day” é simplesmente indescritível. O mundo inteiro regravou: há versões de Ella F., Frank Sinatra e até do U2. O comecinho conta com uma brincadeira de ritmo parecida com um trava-línguas: “(…) Like the drip drip drip of the raindrops when a summer shower is through, so a voice within me keeps repeating: you, you, you”. Êta, marinheiro de sorte!

Clara McFly às 06:39 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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