Todo mundo (inclusive esta garota) tem a mania de rotular uma pessoa pelo livro que ela lê. Quando encontro alguém no ônibus com os olhos fixos em páginas encadernadas, fico esticando meu pescoço para espiar, na tentativa de ler o título ou o autor da obra em questão. Se for livro de auto-ajuda, imagino que a pessoa é insegura e está passando por problemas. Se for algum romance nacional do tipo “Senhora”, imagino que a pessoa foi obrigada a ler para um trabalho na faculdade ou castigo.
Diga-me o que lês e eu lhe direi quem és. Pois se essa adaptação livre do ditado da vovó fizesse algum sentido, eu mesma estaria frita. Acontece que tenho uma certa compulsão por leitura. Às vezes, isso me faz nutrir uma curiosidade inexplicável com certos livros que caem em minhas mãos. E, se tivesse sido pega com algumas obras já devoradas por mim, teria ganhado rótulos diversos e equivocados – quando o motivo pela minha leitura era algo bem diferente.
O livro: “O Alquimista”, de Paulo Coelho
Segundo a opinião geral, quem lê... tem um gosto pobre para leitura. Ler Paulo Coelho é uma ação condenável por muita gente – apesar do cara ser popular no mundo inteiro e nadar em rios de moedas de ouro por conta das vendas absurdas de seus títulos. Estar com uma obra do escritor-e-mago nas mãos é pedir para ser taxado de esotérico.
Eu li porque... tinha de ter uma opinião sobre o cara. Criticar sem propriedade é algo comum no jornalismo, mas comigo não funciona. Além disso, quis dar risadas de todos os erros históricos e de português.
O livro: “O Diário de Bridget Jones”, de Helen Fielding
Segundo a opinião geral, quem lê... viu o filme e se identificou com a personagem em busca de um amor e um trabalho. Normalmente é um livro apenas para meninas, principalmente as “modernas” e “divertidas”, ou aquelas em busca de assunto na conversa de bar com as amigas. Essas garotas querem ser independentes mas talvez não saibam como.
Eu li porque... gostei do filme, sim. Mas principalmente porque queria ver com meus próprios olhos como uma idéia banal (por favor, é um diário!) pode dar rios de dinheiro para alguém esperto.
O livro: “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry
Segundo a opinião geral, quem lê... é fútil e não gosta de livros – leu porque é fácil e cheio de desenhos bonitinhos. Pega bem dizer na roda de amigos “Estou lendo uma obra francesa...”. O rótulo máximo sobre ele é ser o favorito entre modelos e candidatas ao concurso Miss Universo. A fome mundial e o pequeno príncipe estão sempre na boca das beldades.
Eu li porque... adoro histórias infantis. Aliás, gosto muito mais delas hoje do que quando era criança, o que tem a ver com minha vontade imensa de escrever um livrinho para pequeninos.
O livro: “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien
Segundo a opinião geral, quem lê... é um nerd sem vida social, sem amigos, sem namorada e sem diversão, que tem tempo disponível para devorar as mil páginas do volume que está mais para segurador de porta ou calço de mesa do que para um livro a ser guardado na estante. Ou é um nerd como o descrito, mas que gostou dos filmes.
Eu li porque... sou uma nerd que gostou do filme. Mas tenho vida social, tenho namorado e amigos e horas de diversão. Também sou impaciente, e não ia esperar pelos dois últimos episódios da trilogia.
O livro: “O Cão dos Baskervilles”, de Arthur Conan Doyle
Segundo a opinião geral, quem lê... é fã de histórias de detetive ou de Sherlock Holmes em particular. Gosta de filmes de terror e suspense, cita Edgar Allan Poe como referência e adora uma atmosfera dark. Ficou curioso com a fama mundial e indelével do personagem inglês e quis fazer uma leitura fácil, atraente e sem maiores compromissos com o intelecto.
Eu li porque... quis provar a minha teoria de que a dama Agatha Chistie dá de 10 a 0 em sir Conan Doyle em matéria de detetives. Consegui. Sherlock é legal, mas Poirot é Poirot.
O livro: “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D. Salinger
Segundo a opinião geral, quem lê... ficou atraído pelas histórias misteriosas que rondam a obra célebre Salinger. Quis ler o que o assassino de John Lennon estava lendo quando matou o ex-Beatle a tiros. Além da atração pela morbidez, também quis ter papo cool e se fazer de entendido entre os amigos. Ou ainda pode ser um psicopata adomecido.
Eu li porque.. quis saber qual é a desse livro tão falado. E eu adoro o título, sei lá por que. Tenho um tantinho de curiosidade mórbida, e adoraria dizer que sou uma psicopata. Ou não.
E você, leitor? O que anda lendo ultimamente?