quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

Papel de quê?

Esqueça o estranho slogan do tênis Montreal (que protegia os pés contra os micróbios) e o conteúdo do pacote entregue pela Xuxa aos pimpolhos que ganhavam as brincadeiras no palco: o mistério mais insondável a rondar a infância dos oitentistas é por que diabos as meninas colecionavam com tanto esmero os famigerados... papéis de carta!

Não salvava uma: todas as garotas da rua e do colégio ostentavam sua pasta, mais ou menos recheada – dependendo do poder de persuasão junto aos pais de cada uma para fazê-los gastar dinheiro com aquilo – de folhinhas coloridas.

Os papéis tinham basicamente duas categorias: nacional ou importado e com cheiro ou não. Claro que, quanto mais incrementado, maior poder de barganha conferia à dona. Trocava-se um cheiroso por dois ou três comuns, e a mesma regra valia para os importados frente ao produto nacional.

O problema é que, enquanto a classificação do cheiro podia ser aferida ali, na hora do escambo, o fator estrangeiro/brazuca era sempre motivo de discussão. Afinal, a não ser que a peça em questão tivesse impressa em si uma marca “made in USA” ou qualquer outro lugar aparentemente interessante e longínquo para nossas mentes infantis, não havia como provar que o papel era do além-mar.

Choviam, então, os populares gatos. Você podia se dar bem se tivesse lábia suficiente para convencer sua amiguinha que aquele papel comprado na vendinha da esquina foi trazido pelo primo do colega de trabalho do seu pai, em viagem ao Japão (as folhinhas nipônicas também eram bem-cotadas nesse estranho mercado).

Mas o ponto mais interessante dessa história toda é que eu nunca vi, durante todo o período em que participei desse câmbio negro, ninguém – absolutamente NINGUÉM – que usasse os malditos papeizinhos para escrever uma carta, aparentemente sua função original. Qual! Nem um bilhete sequer; uma nota curta dando conta à mãe de que você saiu para comprar mais folhinhas na vendinha da esquina.

Minha coleção virou foi relíquia. Apesar dos insistentes pedidos de minha mãe para jogá-los fora depois que a febre passou, mantive-os bonitinhos na pasta até que... sei lá. Não tenho a menor pista de onde foram parar. Mas não podia atirá-los fora assim, não depois de tanta saliva gasta para convencer as meninas da escola que aqueles papéis que comprei na papelaria do japonês da rua de baixo eram de fato da terra antípoda de seu fornecedor...

papel_carta_minnie.jpg
Eles ainda existem…
Clara McFly às 06:18 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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