quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

O folhetim me ensinou

Quem disse que novela não é capaz de dar importantes informações sobre como regrar a nossa existência? Eu aviso a vocês que já aprendi muita coisa assistindo a essas encenações da vida real. Exemplo: se um dia eu matar a Odete Roitmann, fujo do país antes que inventem um concurso para descobrir quem eu sou.

Dizem por aí que a vida imita a arte. Ou é a arte que imita a vida? Ou é a Globo que imita a Televisa? Ah, não importa. O essencial é se despir de preconceitos e notar que as novelas podem prover milhares de ensinamentos. Eu tenho cá pra mim que esses toques abaixo devem ser usados por todo e qualquer humano interessado em melhorar de situação.

Se eu ficar feiosa um tempo, ganho fortuna no final
Aconteceu inúmeras vezes, e os exemplos mais recentes são a Ana Francisca de “Chocolate com Pimenta” e a Betty, que era feia até no título. As coitadinhas começaram suas novelas mais assustadoras que trombada de ônibus de turismo, usando penteados pegajosos e acessórios sem noção. Mas, passada a fase brejeira, as moças feiosas voltam ricas, fortes, poderosas e lindonas. Que mal existe em viver um bocadinho usando aparelho dental e óculos de coruja se no final vier a glória?

Não devo morar em distantes bairros cariocas
Meu namorido não dorme com barulho. Eu durmo como uma rocha, mas tenho impressão de que isso não duraria caso fixasse residência na periferia do Rio de Janeiro. Bom, ao que parece essas redondezas sempre são dominadas por botecos onde uma moçada barulhenta curte discutir a vida toda ao lado do pagodão. Inclusive, de acordo com os cenários de novela, esses bares nunca fecham – parece 7 Eleven... Tô fora, gosto de sossego.

Não posso ser muito boa ou muito má
Gente que leva seu modo de ser para perto desses extremos, ao menos no mundo da tv, contrai doenças terminais. Bastou a garota ou o rapaz serem uma flor de criatura, passam a sofrer de leucemia, cegueira, deficiência física. Os malvados bem malvados também podem cair na mesma armadilha novelística – desenvolvendo terríveis coágulos no cérebro, suponho, devido à sua ruindade crônica. Melhor é ser só meio boazinha e passar despercebida pela UTI.

Não vou ficar muuuito amiga de ninguém
Toda mocinha de novela tem uma amiga de fé, irmã, camarada. Essa pobre não pega o bonitão da trama, nem fica bem de vida. Pior: lá pelas tantas, a gente nota que a tal nem tem vontade própria, e só vai onde a amigona estrela vai ou faz o que ela manda e quebra seus galhos. Ô vida besta! E antes que vocês perguntem “mas ficando amiga firme de alguém, VOCÊ pode ser a bonitona!” Só que, nesse caso, minha filha vai ficar doente, meus romances vão ser problemáticos e minha vida será uma pândega. Eu passo, obrigada.

Não darei bola pro Marcos Palmeira
Toda garota que se apaixona por esse calhorda acaba por ficar desmemoriada, pobre, doente, chata ou mal falada. Veja em “Porto dos Milagres”, “Renascer”, “Celebridades” etc. Não que o moço dos cachinhos já tenha me dado bola, óbvio. Mas, ainda que isso acontecesse, eu fingiria de desentendida. E eu lá quero um exu desse tipo azarando minha vida?

MarcosPalmeira.jpg
Vai agourar o diabo, cara!
Fla Wonka às 01:05 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold