|
||||||||||
|
||||||||||
Respeitável público, o meu irmão! Vocês podem pensar aí que não tem graça escrever sobre o próprio irmão. (Quase) todo mundo tem irmão, oras. Mas acontece que o meu é diferente. Ele deve ter sido trazido por alguma cegonha marciana ou gerado em laboratório – e depois entregue aos meus pais, que disfarçariam bem a chegada daquele ser estranho na Terra. Ou caiu do caminhão do circo, que é o mais provável. O principezinho do nosso lar é mais velho do que eu cinco anos. E três mais novo que minha irmã, a primogênita. Ou seja: não bastava o Ricardo ser o único menino, ainda é o “do meio”. Os “do meio” já são estrelinhas por natureza, mas o meu irmão vai além do infinito. Quando éramos pequenos, a coisa que mais me deixava invocada era quando a irmãzona dizia para mim, na frente dos outros: “tudo o que ele faz você aplaude. Por isso ele é aparecido, você é platéia de toda besteira que ele inventa”. Mas o que eu podia fazer?? O cara era (é) um showman, e eu era (sou) apenas uma garota em busca de diversão e gargalhadas! Não era minha culpa se o sujeito foi engenheiro criativo desde sempre. Eu brincava com os Playmobils no jardim ou na bacia d’água, ele montava teleféricos com barbante para o pequeno povo de plástico. Eu recortava casinhas de papel para armar, ele usava as casinhas como cenário do trem elétrico (que subia pelo sofá, descia pela prateleira ou carregava bolachas na carroceria). Tudo o que o pirado inventava era legal, engraçado e digno de uma salva de palmas. Até as imbecilidades do irmão eram hilárias. Não lembro a ordem correta dos acontecimentos, mas vejam isso: - ele já queimou o rosto fazendo balão-galinha com jornal; Duro mesmo é ter que admitir que 100% das coisas bestas-sensacionais que meu irmão fazia me davam uma inveja danada e uma vontade alucinante de fazer igual. Por isso aprendi a abrir a boca e mostrar a comida semi-mastigada lá dentro. E a pregar, diretamente na parede do quarto, centenas de recordes de revista de rock. Hoje ele já é mais discreto quanto à sua vocação para fazer espetáculo. A banda que o garoto mantinha, o fabuloso e meteórico “Alarme Falso”, ensaiou revival mas não vingou. O tal ainda toca baixo e guitarra como ninguém (não lembro dele ter ido em muitas aulas, pois o desgraçado aprende de ouvido). Ainda faz nojeira com a comida. Ainda é um ás do volante e ainda sabe coisas sobre todo e qualquer assunto, como se tivesse uma enciclopédia na cachola. Em compensação, agora que ele tem uma fada loirinha para tomar conta dele, o quarto do Ricardo já não parece um bairro bombardeado de Beirute, como na adolescência. Ele também não é mais um magrelo estudante de Rádio e TV, mas um rechonchudo que sabe absolutamente TUDO sobre construção de tramas e marquetingue aplicado à indústria têxtil. Tá com um jeito mais normal, é verdade... Mas à mim, sua platéia de sempre, ele não engana. O showman acaba de completar 34 anos em pleno auge do estrelato. |
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||