segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

Da vitrolinha para o CD player

Eu não entendo essa nossa indústria fonográfica. Eu não entendo o funcionamento do marketing musical. Eu não entendo as regras do jabá. Eu não entendo por que a MTV Brasil exibe sempre os mesmos videoclipes. Eu não entendo como o lançamento do álbum “Superfantástico – Quando eu era pequeno...”, em 2002, passou despercebido. E eu não entendo como eu pude demorar quase dois anos para ouvir falar dele.

Se você vir um CD cuja capa é um menino com uma careta emburrada e usando luvas amarelas de borracha, capa vermelha, camiseta estampada por um “S” escrito à mão, cueca rabiscada e galochas, agarre-se a ele. Ao disco, não ao menino. O despretensioso álbum é uma louvável tentativa de resgatar as músicas infantis dos anos 70 e 80 para trazê-las ao novo século e às crianças que hoje estão na casa dos 25 -35 anos. Como nós.

Quem deu o pontapé inicial ao projeto foi Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão. Ele resolveu chamar várias bandas e artistas para darem outros arranjos àquelas canções que ouvíamos na tevê ou na vitrolinha e marcaram nossa infância. O resultado não é a obra mais coesa e perfeita do mundo, mas um pequenino CD que emociona em várias ocasiões.

A primeira faixa é “Carimbador Maluco”, aquela pérola do especial “Plunct Plact Zum” que a Rede Globo exibiu em 1983. Originalmente interpretada com maestria por Raul Seixas, a canção é uma aula de bom humor e de como letras infantis podem ser criativas e divertidas. Foi o próprio Biquíni Cavadão quem ficou a cargo da reciclagem.

Há ainda “Superfantástico”, o hino do Balão Mágico e de 10 entre 10 brasileiros que passaram pela infância há uns 20 anos atrás, assinado pela banda Penélope e por Arnaldo Antunes. Kelly Key (não, você não leu errado) canta “Doce Mel”, abertura do “Xou da Xuxa”, e realmente consegue nos transportar para uma manhã de algum dia de 1986. Capital Inicial faz “A Casa”, do sublime “Arca de Noé”, virar um punk rock açucarado. As meninas do SNZ repetem o legado de mamãe Baby e apresentam “Lindo Balão Azul”, do especial “Pirlimpimpim”. Tem até Jairzinho, agora como Jair Oliveira, fazendo uma versão de “Xixi nas Estrelas”.

Há algumas faixas que soam estranhas aos meus ouvidos. Como não era nascida quando “Vila Sésamo” estreou, fico meio perdida ao ouvir “Alegria da Vida”, cantada por Zélia Duncan. O mesmo ocorre com “Cinto de Inutilidades” (Frejat), “Vigilante Rodoviário” (Branco Mello), “Sideral” (Leoni), “Funga Funga” (Uns e Outros) e “Hey Shazam” (Vinny).

Mas as maiores pérolas do CD são duas outras regravações que fizeram escorrer aquela lagriminha de canto de olho – e justificam o investimento de duas dezenas de reais. A primeira é uma releitura fofa e cheia de barulhinhos de “O Relógio”, também da “Arca de Noé”. Dá vontade de sair dançando pela sala acompanhando o vocal de Fernanda Takai, do Pato Fu, com a letra que conhecemos tão bem de cabeça.

A segunda é o que o disco tem de melhor: Los Hermanos com o maior clássico de “Os Saltimbancos Trapalhões”, “Hollywood”. Apesar de nada bater a interpretação original de Lucinha Lins (que contava com um coro de risadas de Didi, Dedé, Zacarias e o inesquecível Mussa), o quarteto carioca faz qualquer coração oitentista palpitar de emoção.

O grande mérito de “Superfantástico – Quando eu era pequeno” é mostrar como era bom demais cantar aquelas canções – e como fomos sortudos por termos estado lá quando tudo era novidade.

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Parece a careta de caipirinha da Flá, né?
Vivi Griswold às 08:54 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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