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Feio, bobo e legal para caramba Ele é um dos maiores fãs do Garotas, embora não se arrisque a ler nada além das instruções dos aparelhos eletrônicos comprados por minha mãe (é da jurisdição dele instalá-los) e os livros do Harry Potter. Ele fez com que nascesse em mim tamanha fúria infantil que pensei em jogá-lo na privada e dar descarga. Ele passa horas arrumando o topete na frente do espelho (não sei pra quê, com aquela cara feia...) e consome quantidades cavalares de gel – depois, põe a culpa do pote vazio em mim. Ele está a torrar minha paciência há pouco mais de 20 anos e intensificou a encheção de saco há uns meses, porque quer de toda forma “aparecer na internet”. Pois bem, João, chegou a sua vez! Quando essa criatura nasceu, eu contava pouco mais de cinco primaverinhas infantis. Sabia ler, escrever, conversar com as visitas, contar historinhas, sapatear, cantar e entreter grandes quantias de público. Mas todo mundo que aparecia na minha casa ia para ver aquele pacotinho azedo, com cara de joelho e nenhuma habilidade artística. Até para arrotar o inútil tinha de ser posto no colo! Claro que fiquei inconformada. Os adultos da família me engrupiram por nove meses, com a história de que eu ia ganhar um amiguinho: "olha só que bacana, você vai poder brincar com ele!". Eu devia processar todo mundo por propaganda enganosa. Quando finalmente o rebento veio à luz, não sabia fazer ab-so-lu-ta-men-te nada – como convém a qualquer bebê recém-nascido. O problema foi ninguém ter deixado isso claro para mim antes. Foi quando, enlouquecida de ciúmes, planejei jogá-lo vaso sanitário abaixo e apertar a descarga. Mas desisti porque pensei um pouco melhor e logo vi que minha mãe ia dar falta – claro, agora ela só se preocupava com aquele embrulho que cheirava a leite! Humpf. As coisas começaram a mudar quando o João começou a crescer – e virou o bebê mais simpático do mundo. Especialmente comigo. Ele ria à toa e soltava deliciosas gargalhadas de bebê quando alguém chegava perto do berço. Nunca vi uma criança rir tanto. Comecei a mudar de idéia sobre ele. Mais um tempinho depois, ele ensaiava uns passinhos e balbuciava coisas engraçadas. E amava bolacha: era capaz de rastejar até perto da despensa e ficar apontando para o pote onde minha mãe guardava as danadas. Parecia uma minhoca de macacão pela casa. Depois de adquirir as habilidades básicas de andar e falar, o João virou um carinha legal. A gente inventava toda sorte de brincadeiras esdrúxulas. Quer dizer, eu inventava e ele topava tudo na hora. Se eu dissesse "vamos rolar na terra?", ele ia. Se eu falasse "fica quietinho aí dentro do guarda-roupa até eu abrir a porta?" e demorasse cinqüenta minutos para fazê-lo, ele ficava. Foi quando gostei dele de vez. A gente tinha umas brincadeiras muito próprias. Uma era a Folha Amarela. Eu barrava a passagem dele e dizia "folha amarela!". Então, meu irmão tinha de responder cores variadas até acertar qual era a que eu estava pensando. Para sacanear, eu inventava umas do tipo "cor-de-burro-quando-foge". Também costumávamos passar horas olhando para a cara do outro bem de pertinho e falando "olhando bem de perto, você parece um... mangusto". "E você parece, hum... uma lagartixa". O barato era arrumar bichos bem esquisitos. Mas a melhor de todas era o isquidum. A gente pegava todos – e eu estou dizendo realmente TODOS – os cobertores, colchas e edredons da casa, dividia em dois, se enrolava naquele volume de lã, penas e matelassê e andava pela casa toda, com a cabeça baixa e silenciosos feito monges beneditinos. O tour terminava em cima da cama da minha mãe, onde finalmente cruzávamos olhares e, de sopetão, jogávamos todo aquele pano para cima para começar a sambar e pular cantando "isquidum-dumdum, isquidum-dumdum!" Ah, sim!, já ia me esquecendo de dizer: o João continua bobo até hoje. (Bem, depois de descrever tudo isso, acho que nem precisava mesmo). E vai ficar todo cheio com esse texto. E eu não duvido nada que, daqui uns dias, ele bata na minha porta com uma pilha de cobertores, aquela cara de arteiro e os olhinhos brilhando para um revival do isquidum.
O que dizer de um garoto que usa um saco de supermercado na cabeça? É nóis nos bytes! |
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