quinta-feira, 15 de janeiro de 2004

Pelados e autocolantes

Quando revelamos qual seria o prêmio da nossa grandiosa Promoção de Natal, uma das prendas chamou a atenção de todos: o maço de figurinhas “Amar é...”. O que teve de leitor perdendo o controle, se descabelando, berrando, penhorando bens e prometendo até um Pogobol para cada uma de nós em troca das preciosas figurinhas... Tá certo. O frisson não chegou até o último item, infelizmente – senão, teríamos aceitado na hora! Ficou claro, porém, que muita gente tem saudades daqueles pedacinhos de papel autocolantes e mais açucarados que chupeta de caramelo da quermesse.

Minhas memórias acerca do álbum de figurinhas não são agradáveis. Sim, eu tinha o livrão e passei muitas horas da minha infância tentando colar cada uma delas nos devidos retângulos numerados, tomando cuidado para não ficar torto. Posso contar uma história nojenta? Um belo dia, estava eu debruçada em cima do álbum, quando a vitamina de Neston que havia tomado minutos antes me fez, hã, passar mal. Não tive tempo de reagir e foi tudo no meu “Amar é...” quase completo. Aos prantos, pedi para a minha mãe lavá-lo, o que obviamente não funcionou. Ele acabou indo para o lixo e nunca mais comprei um pacotinho sequer.

Até cerca de um mês atrás, quando estava com a Flá buscando itens para a cesta da promoção na feira de antiguidades do Bixiga. Passando os olhos em uma das barraquinhas, vislumbramos o grande maço cheio de peladinhos e pequenas mensagens apaixonadas, em uma caixa junto a outras quinquilharias. Compramos na hora, pois estava uma pechincha! Depois, nos sentamos para ler uma por uma e demos muitas risadas com as filosofias mais toscas do universo meloso e singelo do amor.

Juntando algumas informações sobre a coleção na Internet – e recebendo do Inagaki um post antigo que ele havia escrito – descobri algumas coisas deveras interessantes. Não sei se o leitor se lembra, mas todas as figurinhas vinham assinadas. Eu sempre li “Kino”, achando ser esse o nome do desenhista. Mas não! É que assim como suas figuras, a caligrafia de Kim Casali não é lá das melhores. Ela é a mulher por trás daquilo tudo (devia ter adivinhado: nenhum espécime do sexo masculino teria a manha!).

Segundo algumas fontes, Kim era uma inglesa radicada na Califórnia que, certa feita, caiu de amores por um italiano chamado Roberto Casali. Embebedada no néctar da paixão, ela começou a escrever para ele bilhetinhos cheios de desenhos, espalhando-os pela casa onde moravam, nos idos dos anos 60. Roberto, um exemplo a ser seguido por todos os namorados, guardou cada um deles.

No início da década de 70, o casal resolveu vender os direitos dos tais bilhetes ilustrados e as imagens começaram a ser publicadas no Los Angeles Times, virando uma febre não só nos Esteites, mas no mundo inteiro. Os peladinhos aportaram no Brasil em 1978, quando a Editora Abril lançou seu primeiro álbum com figuras autocolantes – isso aconteceu um ano após Roberto, o “muso inspirador” de todo esse floreio, morrer vítima de câncer.

Kim também já não pertence mais a este mundo desde 1997, e ultimamente é o filho deles, Stefano Casali, quem assume os desenhos com traços mais modernos. “Amar é...” continua sendo veiculado em diversos jornais e o álbum de figurinhas ainda funciona como uma carta de manga de muita empresa de publicações por aí.

Isso sim é que é casal unido!

Eles não usam uma peça de roupa há mais de 30 anos – o que por si só é um fato a ser muitíssimo admirado. Mas existem muitos outros motivos que explicam nossa fixação nos pombinhos. Alguns deles são as frases que acompanham cada uma de suas peripécias. E eis aqui as 10 mais surreais. Afinal, amar é...

... pôr um bilhetinho afetuoso na marmita dele.

... convidar a sogra para jantar fora com vocês.

... fingir nem haver notado aquela loura.

... deixar que ele conserte os encanamentos.

... deixá-la comprar uma peruca na esperança de que nunca a use.

... levar a lata de lixo para a rua.

... dar-lhe o talão de cheques para fazer compras com a melhor amiga.

... tirar os cabelos que caíram na pia do banheiro.

... permitir que ele fume o cachimbo à mesa, após a refeição.

... pôr no espelho um bilhete: “o chefe é você”.

amare.jpg
Pelados, autocolantes e amarelados
Vivi Griswold às 09:30 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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