|
||||||||||
|
||||||||||
Pra lá de Trás-os-Montes Meu sobrenome é Agostinho. O sobrenome de solteira da minha avó paterna era Coelho. O sobrenome do meu avô materno é Teixeira. Quando eu era pequena, ficava de bico ao ouvir que eu tinha meu sangue lusitano estampado na cara – assunto que sempre estava em pauta por causa de minha insistência em usar um indefectível par de brincos de argolinhas douradas. “É a própria portuguesa”, falava a uma tia. Eu sou sim. Ainda que um pouquinho. Mesmo às vésperas de superar a última batalha da grande guerra que um dia trará para minhas mãos um passaporte italiano tinindo, graças ao lado da minha família comandado pelo saudoso Fiorello Rozzino, tenho de admitir que, pelo menos na matemática dos glóbulos brancos e vermelhos, estou mais para o time de Camões do que para o time de Da Vinci. O que tanto assombrava meus pesadelos infantis era associar o sangue lusitano ao bigode. A mãe de duas colegas com as quais eu pulava amarelinha de rua ostentava uma profusão de pêlos faciais que me botava muito medo. Nem tinha a menor idéia se ela era portuguesa ou descendente de, mas eu chorava com a possibilidade de ficar daquele jeito. Hoje eu sei que uma coisa não tem necessariamente a ver com outra, e que bigodes femininos são causados por umas pedrinhas num dos órgãos que ficam um pouco abaixo do umbigo. Viu como amadureci? Outra tristeza que o parentesco me trazia era ser obrigada a comer bacalhoada na ceia de Natal, como já contei aqui. Enquanto todo o resto dos lares estava sendo agraciado com um grande, macio e rosado peru ou chester, cheio de fatias de abacaxi e pêssego em calda, na casa da minha avó sempre tinha (e tem até hoje, religiosamente) o maldito peixe seco e salgado demais, cheio de anéis de cebola, pimentão de três cores, batatas e muitas azeitonas pretas. Apesar desse obstáculo, ainda é no quesito “comida” que meu sangue português fervilha de alegria e contentamento. Azeite, por exemplo. Se eu pudesse, tomava de gole como um licor. É só me dar uma garrafinha de um extra-virgem, um saco de pão recém comprado da padaria da esquina e um tantinho de sal que eu passo minutos de puro prazer, só chuchando os miolos naquele líquido oleoso que parece vir do céu. Tudo regado a um vinho do Porto, então... Outro vício é o tal de tremoço. As más línguas dizem que os garis têm o maior trabalho de limpar as cascas de tremoço depois das partidas de times como a Portuguesa paulista ou o Vasco da Gama carioca. Pode parecer exagero, mas eu sei bem o que é comer um grão-de-bico em conserva como se fosse pipoca. Só que essa descrição tosca não faz jus à delicia que é acabar com um pote de tremoço em frente à TV. E os doces? Adoro ler as receitas: todas incluem 30 dúzias de ovos, no mínimo – e só as gemas. Isso porque os doces portugueses foram todos inventados pelas freiras lá pelo século XV, que costumavam engomar os hábitos com as claras. Para não desperdiçar comida, elas, muito espertamente, inventaram os melhores, mais engordantes e mais amarelinhos quitutes que este planeta já conheceu. O mais famoso é o quindim. Porém, a lista é muito maior. Bote aí meu favorito, o pastel de Santa Clara. E também o pastel de Belém, a queijadinha de Sintra, o papo de anjo, o toucinho do céu, os ovos nevados, a barriga de freira. Todos com nomes impagáveis e com um recheio transbordando de creme. Se for depender do estômago, sou portuguesa com certeza. Mais do que galos de porcelana, lenços na cabeça e uma bela vista do Tejo. ![]() Muito giro, pá!
|
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||