terça-feira, 13 de janeiro de 2004

Coelhos, noviças e bonecos de gelatina

Entre um bloco e outro das atrações televisivas, estirpes das mais estranhas passeavam em nossa casa. Muitas vezes, nos convenciam a comprar um produto. Elas eram toscas e tinham pouca maquiagem marqueteira. Mas gostávamos mesmo assim. Chegou a hora de prestar atenção nos reclames, leitor – mas nem pense em usar o tempo do comercial para ir ao banheiro ou buscar um quitute na geladeira. Senão, você corre o risco de perder uma viagem às melhores propagandas dos anos 80.

Hoje a publicidade nacional é altamente considerada no mundo todo e gastam-se rios de dinheiro em filmes de poucos segundos. Muitos contam com participações de modelos internacionais e atrizes da novela, computação gráfica de última geração, nomes de prestígio assinando cada peça, locações mais bem-montadas do que produção de Hollywood. Mas quando éramos crianças, tudo parecia ser tão simples! O máximo que se conseguia era misturar desenho com pessoas de verdade, ou acertar em cheio em alguns jingles inesquecíveis. E só.

Lembra daquela época em que apelo popular não era diretamente proporcional a grandes vôos tecnológicos? Eu me lembro. E quero ver se você também se recorda daquela propaganda...

... da Caloi
O filho tentava dar algumas indiretas no pai para garantir o presentão de Natal. Quer dizer, não eram bem indiretas, pois o fedelho espalhava bilhetinhos pela casa toda – no espelho do banheiro, na geladeira, dentro do armário do quarto, na tampa da privada. O recado era só um: “Não se esqueça da minha Caloi!”.

... da Valisère
A inocente peça publicitária que fez da modelo Patrícia Lucchesi um ícone oitentista mostrava uma mocinha experimentando seu primeiro sutiã. As horas em frente ao espelho não diminuíram a vergonha de estrear os passos pela rua usando aquele troço. Toda menina passou por isso. E quem viu, não esquece.

... da US Top
Outra que virou referência, gíria e piada no “TV Pirata”. Em uma reunião de empresa cheia de engravatados, o chefe elogiava a camisa de um de seus funcionários. “Bonita camisa, Fernandinho!” ele dizia, fazendo os olhos de todos se voltarem à peça de roupa. Parece que o Fernandinho era integrante do Metrô.

... da Sadia
Tinham duas favoritas: em uma, a mãe soletrava a marca de salsichas com... salsichas. “I de Ispecial”, dizia o moleque, e a mãe o corrigia, dizendo “especial é com ‘e’...”. Em outra, um menino vendado tentava reconhecer um presunto Sadia com as mãos. “Esse não é. Tá querendo me enganar, é?”. Duas pérolas.

... da Wrangler
Muito marmanjo hoje na casa dos 20 e muitos, 30 anos, começou a sonhar com a musa Luciana Vendramini por causa dessa propaganda. A loira fazia uma noviça rebelde que, ao sair do convento, encontrava-se com o namorado e vestia uma calça jeans. De fundo, a balada arrepiante “Can´t Take My Eyes Off You”.

... do Cornetto
Um rapaz deslizava pelos canais de Veneza a bordo de uma gôndola. Ele cantava uma excelente versão do clássico italiano “O Sole Mio”, promovendo o sorvete da extinta Gelatto. Era algo assim: “Dai-me um Cornetto/ Muito crocante/ É pio cremoso/ É da Gelatto/ Cornetto, Cornetto mio...”. Para ouvi-la, clique aqui!

... do Cremogema
Esse é outro comercial que valia pela música. “Crem, Cremogema, Cremogema/ é a coisa mais gostosa desse mundo”. Daí, a menina cantava “eu esqueço a boneca” e o menino dizia “eu esqueço a minha bola”, e juntos “quando como, como, como...”. Tinha algo a ver com Chapeuzinho Vermelho, mas a memória fugiu.

... do Nescau
Quem tomava um copão do achocolatado (eu adoro esses eufemismos marqueteiros, “achocolatados”...) ficava a mil para as mais diversas peripécias: correr, nadar, surfar, andar de skate. Sim, tomar Nescau era super radical. Rimou! O slogan: “Super Nescau, energia que dá gosto!” e o barulho do canudinho.

... das balas de Leite Kids
As balinhas mais duras de todo o universo ganharam uma propaganda igualmente grudenta e deliciosa. A música era mais ou menos assim: “Roda, roda, roda o baleiro, atenção/ Quando o baleiro parar, põe a mão”. Quem não queria botar a mão num baleiro recheado de balinhas de leite Kids? Todo mundo.

... do Suflair
Você se lembra da Virgínia Novick? Uma garota-propaganda que tem uma voz irritante e já fez a campanha das lojas Marisa? Era ela quem aparecia sentada numa sala tentando fazer a barra de chocolate aerado voar até a sua mão. “Suuuuuuuuflair”, dizia. Com essa preguiça e comendo chocolate, ela ia longe!

... do Impulse
“Se algum desconhecido lhe oferecer flores, isto é Impulse”. Ah tá. Quer dizer que era só dar umas borrifadas daquele desodorante safado (com o mesmo teor alcoólico do que a caninha 51) para algum rapaz parar numa banca de flores e me comprar um buquê com duas dúzias de margaridas? Não caio nessa.

... do Neston
Algumas coisas só têm graça quando a gente é criança. Fazer vitamina é uma delas. Se alguém me vir, hoje, batendo maçã, banana, mamão, leite e cereais no liquidificador, pode me mandar para o hospício. Neston é muito infância, assim como o slogan “Existem 1000 maneiras de preparar Neston – invente a sua”.

... do Quick
O máximo que a publicidade dos anos 80 podia chegar: misturar animação em desenho com atores de carne e osso. O coelho, símbolo do produto, saía do rótulo da lata de achocolatado (e que também existia nos sabores morango e baunilha) e cantava com as crianças: “Quick, Quick/ Faz do leite uma alegria!”.

... do Chambinho
O queijinho do coração fazia jus a sua fama e mostrava diversas cenas meigas tendo corações como personagens centrais. Gostava particularmente da criança que fazia uma corrente de papel com o símbolo do amor. Embalando a fofura, nada melhor do que a música “Carinhoso”, do Pixinguinha, tema do produto.

... da Royal
Conheço gente que fazia parte do Clube do Bocão! Era só mandar não sei quantos rótulos de gelatina Royal e você recebia em casa, inteiramente grátis, uma carteirinha do clube. Como esquecer? O Bocão, no caso, era um boneco gelatinoso, de boné e tênis. O slogan, facinho: “Abre a boooooca, é Royal!”.

... do DD Drin
Quem diria que uma dedetizadora teria um dos melhores e mais clássicos comerciais da nossa infância. Ele é um pouco mais velhinho (foi lançado no final dos anos 70, acho eu) mas vale a lembrança. A animação mostrava uma festa dos insetos, tipicamente “Dancing Days”. Impagável! Clique aqui e assista.

... da groselha vitaminada Milani
A carinha pink e feliz, com língua de fora, que estampava o rótulo da garrafa da groselha Milani, ficava pulando enquanto ensinava às crianças a musiquinha “Groselha vitaminada Milani/ Iahu/ É uma delicia/ Pra tomar a toda hora/ na sua casa, na festinha, na merenda/ tudo fica uma delícia”. E ficava mesmo!

... da Faber Castel
O melhor comercial dos anos 80. Quem não concorda não deve se lembrar daquele primor da animação, com a caixa de lápis de cor ilustrando a letra da música “Aquarela”, do Toquinho, uma de minhas favoritas infantis. Eu amava a hora do beijo azul e de contornar os dedos e fazer uma luva. Se melhorasse, estragava.

Vivi Griswold às 09:12 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold