segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

Minhas férias

1987

As férias foram legais. Pena que acabaram. E agora tenho de escrever a redação porque a professora Sônia pediu. Eu obedeço porque quero passar de ano. Ganhei uma bicicleta do Papai Noel, mas ele errou a marca. Vai ver que não fabricam Caloi Cecizinha lá no Pólo Norte, então ele me deu uma Monark mesmo. Mas eu queria Caloi, porque eu adoro a propaganda dos bilhetinhos. Vai ver foi por isso que ele me deu uma Menina-Flor também – ela é um vaso que se transforma em boneca de cabelo cor-de-rosa igual o daquele cantor estranho, o Boy George.

Vó Diva fez bacalhau de novo. Eu odeio bacalhau. O Lucas, meu primo, também. Daí a gente comeu quibe. Onde já se viu comer quibe na ceia de Natal? Meu outro primo, o Thiago, gosta de bacalhau. Mas aquele gosta de qualquer coisa, até de pedra. Daí a gente fez guerra de vagem na mesa das crianças. É só botar a vagem da salada de legumes na toalha e dar um peteleco para acertar no outro. É divertido. Pena que adulto sempre dá bronca quando brincamos com a comida.

No Ano Novo o vô Justino deixou a gente beber champanhe. No rótulo da garrafa vem escrito “sidra”, que deve ser a marca. Parece Tubaína, só que azeda. A rolha voou lá na horta e fomos procurar. Dessa vez teve peru, mas eu e meus primos começamos a brigar pelas coxas. Peru só tem duas, e nós somos em três. Por causa da briga, ninguém pegou a coxa. “Estão felizes agora?”, disseram. Não estávamos. Queríamos um peru de três coxas. Ou de seis, para ter duas para cada um.

Depois da ceia a gente foi nos balanços do quintal. Começou a chover. A gente adora ficar balançando na chuva. Nossa roupa branca ficou encardida, mas daí a gente pôde falar “agora, tomar banho, só no ano que vem”. O ano que vem viria depois de algumas horas, mas era divertido ficar repetindo isso. “Almoço, agora, só no ano que vem”. Rarará.

Fui para Piracicaba com o Lu e o Thi. Eles moram lá. No quarto deles tem um armário gigante e, quando a gente abre, até cai brinquedo na cabeça. Posso brincar com todos os Playmobil e Comandos em Ação. Ninguém quer brincar com a minha Barbie. Mas tudo bem, porque depois do almoço a tia Leca deixa a gente ligar o Atari e ficar jogando Frostbite. Depois de duas horas, ela põe a mão no videogame e, como ele está quente, ela pede para a gente desligar. Droga.

Comemos pamonha e andamos de bicicleta na frente do prédio. Eu caí e machuquei meu joelho. Bem em cima da casquinha da ralada que já estava sarando. Tia Leca veio com o merthiolate. Só de sentir o cheio daquilo eu já comecei a chorar. “Não vai doer, eu assopro”. Sei. De noite, ela ligou para minha mãe e disse que eu armei um escândalo por causa de um machucadinho. Isso porque não foi no joelho dela. Queria ver. Se minha mãe soubesse de todos os palavrões que ela me ensina.

Daí fui para São Vicente na casa da vó Nena. Gosto do apartamento dela porque lá a gente só come sanduíche de mortadela no pão fresquinho e bebe Tang de laranja. Mas eu não gosto da TV, que não pega de jeito nenhum. Meu ouvido ainda está tampado de descer a serra. Vó Nena diz para eu levantar a cabeça e abrir a boca, que ele destampa. Não funciona.

O dia está nublado e chovendo. Peço bem forte para São Pedro parar de lavar o quintal. A chuva pára e daí aparece um tantinho de céu azul no meio daquele monte de nuvem. Grito para a vó Nena que o tempo melhorou e a gente vai para a prainha. Queria mesmo ir para a outra, com ondas, mas a vó Nena só me deixar ir na pequena que mais se parece com uma poça de água salgada. Por causa da chuva, a areia está cheia de gravetos. Assim não tem graça.

De volta para a minha casa, começo a arrumar o material escolar novinho que mamãe está comprando. Ela até me deu essa caneta de quatro cores. Quatro cores! Por isso eu escrevi a redação assim, toda colorida. Ficou bom, professora?

2004

Não passei o Natal e o Ano Novo na casa da minha avó. Não tem mais balanço no quintal. Não existe mais a mesa das crianças. Descobri que Papai Noel não existe e que sidra não é champanhe, como meu avô dizia. Tia Leca continua boca-suja, mas voltou de Piracicaba. O Lucas está fazendo um curso em algum lugar da França e o Thiago, que cursa Artes Plásticas na Unicamp, não faz mais guerra de vagem. Vó Nena morreu há três anos e faz uns 15 que eu não vou para São Vicente e para a prainha. Nunca mais tive férias assim, e nunca mais precisei descrevê-las em uma redação – até agora. Bom estar de volta, leitor.

Vivi Griswold às 09:51 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold