Ao redor dos anos 80 existe uma nuvem que embaça tudo e que nos faz perguntar se aquilo realmente existiu. Seria possível que toda uma coletividade pudesse usar aquelas roupas e cabelos? É mesmo verdade que tais programas de TV, músicas e filmes foram aplaudidos por toda uma geração? E, sobretudo: aquelas pessoas que nos rodeavam eram humanas? Decidi vencer meus medos e mergulhar no universo 80s para eleger os tipos mais estranhos da infância.
10) Space Ghost
Tá certo, o cara traz a esquisitice no nome, mas sua obsessão por matar insetos gigantes me faz pensar que ele talvez fosse financiado pelo Detefon. Ele vivia com um colan branco, na companhia dum macaco mascarado, nunca mostrava o rosto e vivia no meio do nada. Sempre desconfiei desse cara e, mesmo agora, sabendo que se tornou um apresentador de talk-show respeitado, não consigo parar de olhá-lo de soslaio.
9) Príncipe Namor
Esse aí tinha asinha nos pés, vivia com uma sunga estranha, quando falava ficava com o corpo todo imóvel e só a mandíbula se mexia e tinha uns ataques de depressão e melancolia que embrulhavam o estômago. Acho que nunca me acostumei a assistir “O Homem do Fundo do Mar” por trauma do Namor.
8) Haniel
Esse você decerto não conhece. Foi meu colega durante todo o primário, na época em que primário se chamava primário. Ele era um cara magrinho e aparentemente pacato, mas a menor contrariedade seus olhos ejetavam e ele começava a bufar e dizer: “eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu posso ir pra cadeia, mas eu juro que te mato!”
7) Shao Lin
Não o legítimo, mas o que tínhamos lá na nossa classe, um cara branquelão, de olhos claros sempre parados e extremamente introvertido. No primeiro dia de aula, o professor de educação física perguntou se ele jogava alguma coisa e ele respondeu: só caratê. Foi zoado o resto do tempo que passou por lá e sempre reagia da mesma forma, armando as mãos como se fosse dar um golpe de caratê. Golpe que felizmente nunca veio. Aliás, qual era o nome dele mesmo?
6) Vovó Mafalda
Uma velha gorda, de voz grossa, pernas e braços peludos, touca estapafúrdia na cabeça e despudorada a ponto de viver mostrando a calcinha – na qual estava bordado um enorme coração vermelho. Quem seria mais estranha? Ela ou eu, que dava risada dela?
5) A Noviça Voadora
Era um seriado de TV que apresentava uma freira voadora (parece que ela era tão magra que o vento no seu enorme chapéu de noviça a fazia voar) em Porto Rico. Acho que não preciso dizer mais nada.
4) Goldar
Era um robô dourado com uma vasta cabeleira loira no estilo trash metal de onde saíam duas antenas sempre prontas a disparar raios mortais contra os inimigos da Terra. Ele tinha uma esposa (?) e um filho com cara de japonês (??) e transformava-se em foguete. Enfim, o protagonista da série Vingadores do Espaço, que estava sempre acompanhado do velho Matusalém e sua enorme barba de algodão branca, é uma figurinha que me deixa meditabundo ainda hoje.
3) Pinóquio
Esse moleque de madeira deixava qualquer um deprê com suas histórias escuras e cheias de amaríssimas lições de moral. Merece figurar no Top 10. Aliás, merecia mesmo era alimentar alguma lareira no inverno.
2) Fofão
Afinal de contas, o que era aquilo? Um cachorro? Um E.T.? E por que o chamavam Fofão se aquela cara tinha jeito de ser dura feito o quê? E aquela voz? E a música “mê mê mê – mergulhe de cabeça – dê dê dê – deixe que aconteça – a vida quando tem substância é melhor”, que ele cantava pro Caldo Knorr?
1) Eu mesmo
Sinceramente, todo aquele tempo assistindo a essas coisas, arranjando pretexto pra fazer guerrinha de mamona na rua, comendo melancia com mostarda, amarrando pano de prato no pescoço, imitando os caras do Chip’s pulando do sofá, botando pipoca, aveia, sucrilhos, uns quatro tipos de geléia, mais manteiga, margarina e requeijão tudo numa única fatia de pão... Enfim, eu tenho autocrítica e sei que não posso ficar de fora dessa.
Ao iniciar a lista duvidava que teria fôlego para chegar a 10, mas lembrei da Zebra da Loteria Esportiva, de todos os figurantes de Os Trapalhões e de mais uma meia dúzia de colegas de classe e professoras. Percebi, então, que o ranking poderia ir muito mais longe. Isso me faz pensar que é preciso tomar muito, muito cuidado! Qualquer hora podemos ceder à tentação e deixar de ser esquisitos!
Por Marco Aurélio