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| quinta-feira, 1 de janeiro de 2004 |
Reinações de Taisinha
As brincadeiras preferidas pela molecada nos anos 80 eram as mais ingênuas e imaginativas que as décadas tiveram notícia. Ter dinheiro para comprar artigos em loja era o de menos – como poderá ser conferido na lista que segue. Bom mesmo era botar a imaginação pra funcionar e dispor de qualquer item da residência dos pais para rechear manhãs e tardes de pura aventura.
1) Corrida com caixa de papelão
Era assim: cada um da turma procurava o maior número de caixas grandes que conseguisse. Geralmente o dia oficial dessa brincadeira era sábado, o dia internacional das mudanças residenciais. Aí era só dividir e decidir quem ficaria com a caixa da geladeira, do fogão e do freezer. Aos menores, restava a do depurador de ar. Feita a distribuição, começava a festa – ou melhor, a corrida. Cada um entrava em uma caixa e tinha que correr até um determinado ponto. Só que como essa corrida era algo de alta periculosidade, quase ninguém chegava ao ponto. Se um caísse com sua caixa de geladeira, todos se amontoavam e a risada era inevitável.
2) Carrinho de rolimã
Em frente de casas e prédios de crianças sempre tem alguma rampa, ladeira ou coisa que o valha. É batata. E é também a diversão da criançada que, vez por outra, monta um carrinho de rolimã com restos de madeira, quatro rodinhas e muitos tombos – que geralmente vêm acompanhados de mais risadas.
3) O primeiro "emprego" a gente nunca esquece
Não sei quanto a vocês, mas sempre, desde pequena, penso na minha independência financeira. Isso começou quando, aos seis anos de idade, resolvi fazer sacolé (gelinho, chupa-chupa, o que preferirem) e vender para os vizinhos. O objetivo inicial era comprar um presente para a mamãe no Dia das Mães, mas uma ida à banca de revistas levou meu plano por água abaixo. Gastei tudo em duas revistinhas para colorir do Palhaço Alegria e figurinhas da Rainbow Bright e dos Ursinhos Carinhosos.
4) Cabaninha no lugar mais importante da casa
Na minha época, barraquinhas que se abrem sozinhas, imitando casas de campo ou aquelas com a Turma da Mônica eram ficção científica. Afinal, custavam horrores e os meus pais preferiam investir na minha educação, viu? Deu no que deu, virei jornalista e não "advogadadesucesso". Mas, enfim... Como não havia cabaninhas no reino de Taís, colchas de retalhos feitas por minha mãe eram estendidas em cima da mesa de jantar da sala e o mundo lá debaixo se transformava. Não faltavam lanternas, panelinhas de plástico, bonecas que chupam o dedo e pipoca, muita pipoca.
5) Batata frita do restaurante do papai
Lá em casa, dentre todas as tranqueiras armazenadas na sala do apartamento onde morávamos, havia um bar alto, com duas banquetas, várias taças e garrafas. Não sei porque aquela peça ficava ali, mas sei fazia a nossa felicidade, minha e da minha irmã, toda sexta à noite. É que toda sexta à noite, meu pai, um perspicaz engenheiro elétrico, utilizava seus dotes culinários (que se resumiam a fazer frituras e bagunças na cozinha) e fritava quilos de batata, servida no palito, para as duas meninas que se instalavam nas banquetas, tomando baré-cola no canudinho e fingindo ter duas décadas a mais. Na vitrola tocava Elis Regina que se alternava com Roberto Carlos – quero deixar bem claro, ambos eram da minha mãe. Nada mais cool para uma sexta-feira à noite, não? Não quando se tem seis anos de idade...
6) Fogãozinho de tijolos
Se nas férias de verão não dava para viajarmos em caravana de primos e tios para a praia, ficávamos em casa, esperando as estrondosas e avassaladoras tempestades passarem. Quando terminava o aguaceiro, quase sempre tinha uma árvore no chão. E era para lá que íamos, felizes, com panelinhas de alumínio, um punhado de arroz e caixas de fósforos estrategicamente roubadas da cozinha. Arrumávamos tijolos e ali, em baixo da ex-árvore frondosa, fazíamos uma gororoba que nunca cozinhava. O resultado era uma gosma branca e dura – vulgo arroz – que comíamos como sobreviventes de guerra. Como era gostoso. E o mais interessante era a logística para a montagem do fogão a lenha, quero dizer, gravetos.
7) Malefícios da TV
Quando criança, eu estudava de manhã. Logo, nunca estava em casa na hora dos desenhos animados irados. Ou seja, ficar doente, levar injeção no bumbum e tomar remédio amargo valia o esforço de ficar a manhã toda vendo TV. Superamigos, He-Man, Turma do Zé Colméia, Corrida Maluca... Mas o mais excitante era a hora do sorteio das cartas. Quando a loira sentada em cima da remessa dos correios enviada ao Jardim Botânico jogava a envelopada toda para cima, eu ficava pensando “pega o envelope amarelo, o amarelo grande, o amarelo grande com selo de passarinho...” A pontinha de felicidade acabava quando ela não pegava o danado do envelope amarelo grande com selo de passarinho. Mesmo porque era hora de desligar a TV e almoçar.
8) Chiclete mastigado e guardado em lugares inusitados
Até parece que chiclete era artigo de luxo... Afinal de contas, não havia um que não passasse algum tempo no limbo do "debaixo da mesa" da sala da minha mãe ou no congelador da geladeira, ao lado dos sacolés de Nescau...
9) Comandos em Ação
Brincar de Barbie era legal. Brincar de Top Letras era legal. Brincar de Atari também era legal. Mas nada como ir para os jardins, em frente ao prédio, munida de uma meia dúzia de Comandos em Ação e imaginar que estava na Amazônia...
10) Bonecas de papel
Tá bom, elas tinham cabeças gigantescas, uns olhões enormes e boca pequenina, tipo desenho animado japonês. As roupinhas, também de papel, tinham que ser recortadas com o maior cuidado. E ainda assim não duravam mais de uma semana. Mas a grande dádiva das bonequinhas de papel era que podíamos levar para a escola, dentro dos livros, que ninguém percebia. E os nomes? Grace, Julia, Polyanna, Kelly – dignas de dar inveja aos nomes de classificados de acompanhantes. Fato é que todas as minhas bonecas se chamavam Vanessa. De papel ou não, lá vinha a Taís, com alguma de suas Vanessas debaixo do braço.
Por Taís
às 09:01 AM
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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.

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