segunda-feira, 29 de dezembro de 2003

Eu, Nenê e Matché contra a rápa

Infância... Ah, que doce fase da minha vida. A única preocupação era a de entregar os trabalhos e conseguir notas suficientes para passar de ano. O resto era um salve-se quem puder. Meu caderno era um desleixo. Nunca soube o que era passar à limpo que as meninas tanto falavam.

Quando eu chegava em casa, então... que batalha. Na verdade eu chegava em casa duas vezes: na primeira, jogava a lancheira e o material longe e ia pra rua jogar bola. Na segunda, chegava completamente imundo e, como de praxe, tomava uns petelecos na orelha por ter sujado o uniforme pela quinta vez na semana.

E enquanto na escola eu aprontava muito... na rua eu aprontava ao quadrado. E o pior era que eu fazia todas as coisas insanas sabendo que não podia me machucar para não apanhar quando chegasse em casa. É isso mesmo. Minha mãe, vendo o que eu aprontava, dizia que se eu me machucasse, ia apanhar. E não dava outra.

Mas também, olhem as brincadeiras: surf em cima da bike, fechadinha, futebol com rasteirinha, queimada com o pé, policia e ladrão com pedras... Eu adorava. E acho que tudo por influência dos amigos. É sempre por causa deles.

Quem passou boa parte do tempo brincando na rua quando era pivete, sabe do que estou falando. E o mais engraçado é lembrar dos apelidos. Ninguém era chamado pelo nome. Todos... absolutamente todos tinham um apelido. Mesmo na escola, haviam algumas figurinhas carimbadas com seus apelidos grotescos. E são esses caras que quero homenagear aqui no Garotas. Aí vai meu ranking de apelidos dos amigos de infância.

Pira-pora
Pira-pora era um moleque mirradinho, fraquinho e pequenino que morava no começo da rua e tentava de todo o jeito falar sem o sotaque do interior. Eu não me lembro de que raio de cidade aquele fedelho era, mas era caipira. Um caipirazinho na cidade grande. Assim, pensando na música “sou caipira pira-pora, nossa senhora de Aparecida” algum gênio lhe deu o apelido.

Pinga
O Pinga era o irmão mais magrelo do Marcelinho. Ele era mais novo do que eu uns 3 anos, mas podia andar com a gente porque era gente fina (literalmente). Ele não chorava e jogava bem todos os esportes. O problema era que ele não se agüentava em pé. Não sei se era a força do vento ou se às vezes os braços dele pesavam mais que as pernas, mas não tinha jeito... ele não parava em pé. Vivia tropicando e caindo sozinho. Daí... PINGA.

Binho Kanangô
Toda rua tem um Binho. Mas Binho Kanangô só a minha rua tinha. Ele era Fábio, descendente de japoneses e que nos reunia em sua casa quase toda a semana para assistirmos os episódios do Jaspion. A obá, avó de 80 e poucos anos, ficava na sala agüentando nossa gritaria e lutas durante todo o seriado. Certa vez, o Binho voltou-se para ela e perguntou: “Obá, o que é KANANGÔ?”. A velha senhora não entendeu nada e nem deu ouvidos. Depois de um tempo, quando comecei minha aula de inglês na escola, fui perceber que a música do seriado não era cantada em japonês, mas em inglês... e começava com a frase “CAMON BOY”.

Nêga
A Nêga era um cara... Peraí não entenderam? É isso mesmo! A Nêga era um cara, mais especificamente um japonês. É estranho, mas minha rua tinha dessas coisas. Mas me deixa completar. A Nêga era um cara, irmão mais velho do Bé. Ambos skatistas, mas de estilos completamente diferente. Enquanto o Bé azucrinava toda a molecada com brincadeiras como oferecer doce com cola dentro ou amarrar a criança pelada no poste, a Nêga era mais calma. Era mais na dela. Isso porque ninguém entendia o que ela falava. Ela balbuciava algumas frases e tentava se fazer entender, mas era quase impossível. Era uma mistura de “brrrrrr” com “mããããã”, que não fazia o menor sentido.

Amarelinho
Era da mesma idade do Pinga. Chegou na rua depois de um tempo. Acho que já tínhamos uns 16 anos e ele uns 12. Mas era jogador de bola. Jogava muito. Sabia o que fazer com a pelota. Aí, nosso time precisava de mais um porque alguém tinha se machucado. E quem chamar? Alguém respondeu: “vamos chamar o amarelinho”. Quem? Amarelinho? E o apelido pegou, talvez pela insistência daquele moleque em sempre usar alguma roupa com tons de amarelo predominante.

Bigulim
Era irmão mais novo do Urso que, por sua vez, era da turma dos grandões, junto com o Nenê, o Kikuchi e o Luiz Armando. O Bigulim era um ou dois anos mais novo que eu, mas sempre brincava com a gente. Ele era clássico por deter o recorde de brigas com o Juliloco, o moleque mais doido que já conheci. Também ficou conhecido pelo clássico assovio da sua mãe quando o chamava para entrar ou pela absurda semelhança do seu pai com o Osmar Santos. Mas Bigulim ganhou o apelido por uma característica única: seus enormes lóbulos de orelha. Como ninguém sabia que aquela parte engraçada se chamava lóbulo... deram o nome de BIGULIM. Pronto!

Abacaxi
Uns dizem que era por causa dos caroços de espinha que ele tinha na cara, muito semelhante aos que tinha na fruta. Outros dizem que era porque em muitos momentos ele era azedo, o que eu, particularmente, não achava. Abacaxi tinha um ano a menos da minha idade e era um dos caras mais legais da rua.

Gengivaldo
Agora sim. Em uma lista com os melhores apelidos dos amigos não podia faltar o Gengivaldo. Ele se chamava Kleber e era meu vizinho de cima. Sabe aqueles meninos mais novos que sentem admiração por você? Amam você por algum motivo que você nem faz idéia? Então, o Gengivaldo era assim. Vivia grudado em mim. Mas a origem do seu apelido veio logo que ele chegou na rua. O garoto tinha uns 10 anos e quase 1,70 metros de altura. Fora a gengiva proeminente: ele sorria e parecia que era banguelo. Ficou conhecido também como Pé de Pano, o cavalo do Pica-Pau.

Puxa. Dava para colocar mais umas três páginas com os apelidos. Mas confesso a vocês, leitores e leitoras do Garotas, que estou emocionado. Essa foi uma fase muito marcante na minha vida e lembrar desses amigos me faz entender quão valiosas são nossas lembranças. E me deu uma saudade. Eu nem sei mais onde eles estão. Alguns deles, sei que estão no mesmo lugar; outros foram morar no céu; mas de outros, não tenho idéia. Quem sabe possam estar lendo esse texto. A Internet faz milagres.

Por Leandro

às 02:43 PM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold